Bom dia,sexta.

Sexta feira e eu sem o trabalho terminado porque isto de ter o miúdo a arder em febre, altera logo as rotinas…

Bom dia para esse lado.

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Órfã de Pai.

Há um ano jamais acreditaria que iria perder o meu Pai antes da minha Mãe. Sempre achei que o meu Pai cá estaria para nos ajudar com a terrível doença que ataca a minha Mãe e que, Graças a Deus, ainda não se manifestou de forma gritante embora a cada dia se perca (mais) uma réstia da memória.

A vida dá muitas, inúmeras voltas. Nem sempre estamos preparados para elas. Nuns dias achamos que somos valentes, noutros uns gigantes com pés de barro, e noutros desatamos num pranto com o primeiro amigo/conhecido que nos aparecer à frente. Os dias são todos diferentes e nós, tal como a meteorologia, podemos prever como estaremos mas também poderemos falhar. Não sei se é das hormonas, do ciclo menstrual, do facto de ser mulher, do facto de ser caranguejo, enfim, não consigo estabelecer uma relação causa efeito. Sei que em alguns dias me esbardalho na auto estrada das emoções e choro quase de manhã à noite.

O meu Pai faz-me falta todas as horas dos dias mas faz falta à minha Mãe todos os segundos das horas. Todos. Porque o meu Pai era a bússola que a orientava na desorientação que a doença tantas vezes lhe trás. A minha Mãe não consegue aprender, fixar, memorizar. Tem um telemóvel novo e demorou quase um mês a perceber em que teclas clicar para fazer uma chamada. Só sabe atender. Eu sei que ela não me liga não por não se lembrar de mim ou por não querer saber. Ela não me liga porque não sabe como fazer. Olha para um telecomando de uma televisão como eu olho para o cockpit de um avião. A auto estrada do seu conhecimento tem inúmeras vias cortadas, daquelas de terra batida em que é preciso desbravar a erva para se passar. Depois de limpas até um camião lá passa, mas em bruto nem com carro de mão.

O meu Pai era o mais inteligente e cheio de destreza dos Homens. Sabia um bocadinho de quase tudo tirando algumas excepções como a cozinha em que era um zero à esquerda. Mas sabia de electricidade, de canalização, de pedreiro, de carpinteiro, de jardinagem, agricultura e de tudo o que fosse engenhocas. Sinto falta da sua destreza, da forma sábia como me resolvia os problemas (no último ano de vida perdeu todos os interesses). Sinto falta do que não lhe cheguei a dizer (isto que aqui escrevi agora por exemplo), dos sítios onde não fomos, onde não o levei, e de como devíamos ter aproveitado a vida enquanto era plena.

Ficou um vazio gigante, abismal, que nunca será preenchido. Nunca. Jamais. Em tempo algum.

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Bom dia, quinta feira.

E quando do nada o pequeno fica com febre, logo na altura em que era preciso ir trabalhar e retomar a escola e as rotinas..

Nunca sabemos como vai ser o dia de amanhã..

Bom dia para esse lado.

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Looking at the stars.

Sempre que olho o céu, sei que ele agora está diferente. Está mais brilhante, mais luminoso. Tenho saudades do meu Pai. Muitas, Imensas. É no cemitério que me sinto mais perto dele. É lá que me apetece contar-lhe aquilo que me vai acontecendo. E é por isso que não aprecio ir ao cemitério acompanhada. São momentos só meus e partilha-los é como escrever neste blog, prefiro sempre fazê-lo sozinha.

Boa Noite.

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Racismo ao nosso redor…

Passa-se tanta coisa, todos os dias. Tanta coisa que gostaria de aqui trazer. Mas nem sempre consigo. Tenho sempre opiniões sobre as coisas mas falo pouco para as poder expressar. Estou com poucas pessoas, a nível laboral não tenho grande abertura para abordar certos assuntos porque estou sempre em representação da entidade para a qual trabalho e é assim. Ou escrevo aqui ou vão passando por mim os assuntos.

O caso Marega fez-me reflectir (mais uma vez) sobre o racismo e de como, nos dias de hoje, ainda existe. E parece que numa base diária. Já aqui escrevi sobre o racismo, sobre como é coisa com a qual não compactuo, criada que fui e educada que sou para respeitar todas as cores de pele e todos os estratos sociais. Não consigo conceber como é possível, como nos dias de hoje, ainda possam existir pessoas que educam os seus pequenos filhos, incitando-os a não brincarem com outros meninos só porque são pretos, amarelos ou de qualquer outra cor. Graças a Deus educo um filho que me faz (tantas horas caramba!) a cabeça em água, mas que é INCAPAZ de gozar com outros, de ter atitudes racistas e que é o primeiro a abdicar de prendas dos colegas que ele sabe terem mais dificuldades. Cresceu misturado com meninos de outras cores, credos e culturas e habituou-se a não gozar com o cheiro da comida indiana nas sacolas dos colegas, ou perceber porque tinham que ser de outro animal que não o porco, as salsichas dos hot dogs de alguns amigos. Tenho a certeza que não é racista. Assim como eu. É por isso, para mim, difícil de aceitar, complicado de engolir, que isto se passe com pessoas que já tinham idade para ter juízo. Sinto-me envergonhada se perceber que vivo num país racista porque o pequeno cogumelo onde cresci, lá onde há pouco mais do que aquilo que é verdadeiramente necessário, sempre me ofereceu turmas em que pretos e brancos eram fifty/fifty. E sempre percebi que éramos iguais, sendo que para mim eles eram superiores porque a maioria já tinha andado de avião e eu só viria a andar aos 23..

Acho muito bem que sejam punidos aqueles que pensam, e pior, agem com actos racistas. Não deveriam nunca mais dormir uma noite descansada. Tipo acordar de meia em meia hora, que isto para pessoas como eu, para quem dormir é só assim o único luxo, é de facto perturbador.

[O castigo poderia igualar-se para os racistas e para os que maltratam os animais, enquanto se pavoneiam por aí armados em pseudo chiques, só que não].

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