Eles desconfinam…

Gostava [se calhar] de conseguir dizer, Eu desconfino,Tu desconfinas, Eles desconfinam… Mas de facto eu ainda não desconfinei, nem tenho ainda uma data para recomeçar a trabalhar e em que moldes. Dizer que tem sido extenuante é um bocadinho soft. Diria que tem sido um desafio. Dou por mim a ir ao lixo para apanhar ar na cara, a fazer exercício até nos dias em que tinha designado não o fazer, em como a minha mãe a ficar contente de ir a um supermercado, ou por experimentar um detergente novo. Vidas…

Hoje regressou uma boa parte da população ao activo. Restaurantes, cafés, creches, professores e alunos dos 11 e 12 anos, uma espécie de cobaias para o próximo ano lectivo, e certamente muito mais gente do que aquela que não trabalhava na semana passada.. Pelos vistos houve muito mais trânsito na estrada e milhares de pessoas puderam de novo experienciar um café em chávena escaldada. Não foi o meu caso. Acho que já todos precisamos de retomar as rotinas.

Este confinamento provocou em mim algumas alterações que serão comuns a muit@s: tenho muita dificuldade em andar com calças de ganga (ando há muito tempo de roupa confortável), tenho problemas com os soutiens (tudo me magoa, tudo me incomoda, andei sempre de tops desportivos), não aguento as lentes de contacto muitas horas (antigamente poderia andar com elas 15 horas sem incómodo algum), não me apetece perder muito tempo com o cabelo, nunca mais usei anéis e brincos grandes, nem blazers, casacos, botas e echarpes. O simples e prático passou a ser o essencial e este desconfinamento há-de ter que trazer com ele muita adaptabilidade em muitos, inúmeros, campos..

Dias como hoje são de muita expectativa para muitos. Não sei se vamos ficar todos bem (mais de mil e de quem deles gostava não pode dizer o mesmo) mas sei que a economia tem que arrancar…Por muito que custe e seja estranho.

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Dias sem fim.

Há aquele ditado que diz “Não morreu da doença, morreu da cura” e de facto, há dias, em que parece que sairei deste confinamento num estado mental muito pior do que se calhar os sintomas que a Covid19 me poderiam trazer. Ou não. Não sei.

Desde há algum tempo que uso máscara em sítios fechados e comecei a utilizar em alguns espaços abertos também, nomeadamente se estão pessoas em volta. Percebo que não tenho grande pulmão, que muitas vezes fico com um cansaço extremo, extenuante, com uma sensação de cansaço no peito que me incomoda. Não sei se isto acontece com mais pessoas, se me acontece só a mim. Sei que fico como se tivesse corrido uma meia maratona (não sei, nunca corri, mas deve ser mais ou menos assim).

Tenho vivido tempos complicados. A morte, essa senhora vestida de negro, tem feito visitas a pessoas chegadas. Perder familiares custa sempre muito, perder pessoas jovens com a minha idade que cresceram connosco, faz-nos perceber que a linha que separa a vida da morte, é de facto, muito ténue. E isso é, para mim, verdadeiramente assustador.

Não consigo tirar o preto da minha alma, nem da minha roupa, mas pelo menos obrigo-me a conseguir vestir umas calças de ganga e uns ténis com pequenos apontamentos coloridos.

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56/…

Esta coisa do confinamento, de estar fechada em casa, de na minha inocência ter achado que bastavam 15 dias em casa para esta porra passar, tem-me trazido também grandes análises sobre o que vai acontecendo na sociedade. Percebemos todos que temos que andar de máscara daqui para a frente e até não sei quando, que o distanciamento social vai manter-se por muito tempo, e que é preciso alertar os mais velhos para os perigos iminentes deste inimigo invisível, incolor, inodoro. Que não se sabe onde está, nem muito bem como se transmite, essa é que é a realidade.

A minha Mãe tem 80 anos. Está na idade de risco. Nunca mais a vi. Nunca mais lhe toquei, nunca mais lhe senti as mãos. A minha Mãe às vezes acorda e não se lembra da pandemia. É como se o mundo estivesse igual. Também lhe custa o confinamento. Gostava muito de ir ao supermercado de vez em quando. E nunca mais foi. Está em casa neste “rame rame” há muitos dias e ontem pediu para ir ao supermercado, ver umas coisinhas. Poderia ir só à mercearia de bairro que não se importava. Não há forma de lhe dizer que não. É um pedido legítimo, que todos entendemos. Lá foi ela, por momentos perceber, à maneira dela, como o mundo está.

[56 dias de exercício. Para este lado se falhei foi um dia].

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55/…

A pessoa sai para ir ao supermercado e percebe que está quase doidinha quando fica feliz por ainda saber conduzir (embora por vezes se esqueça que o carro tem a 6a), quando percebe que já mal sabe andar calçada (parecia que tinha pedras, descalcei-me 3 vezes) e de saltos (mesmo sendo dos confortáveis), que olha para tudo como se tivesse estado adormecida durante uns 3 meses, que vê todos ao seu redor, na estrada, no supermercado e nas ruas, de máscara e percebe que sim são outros tempos, é uma nova vida, uma nova forma de viver, um novo Mundo para onde fomos enviados com um livro de instruções muito limitado.

Passaram 55 dias e o Mundo mudou. Perdemos todos a expressão. Vai levar muito tempo até isto se compor.

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54/…

São 54. E enquanto não houver vacina, não houver tratamento, a vida não será como era dantes. Acordei com falta de ar e tosse eram quatro da manhã. Quase nunca tive falta de ar. Fiquei em pânico, transpirava, tive pesadelos que o meu carro era levado pela corrente e o meu filho estava lá dentro comigo. E eu queria salva-lo. Foi horrível.

São 54 dias mas parecem-me meses, longos meses.

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Perder a conta aos dias…

Não sou propriamente uma pessoa muito forte emocionalmente. Embora muitas vezes o seja, mesmo sem saber. Os últimos tempos não têm sido nada fáceis (para ninguém), para mim têm sido ainda piores porque não me consegui reabilitar e fortalecer a tempo para viver uma situação como esta. Não fui capaz.

Todos os dias são uma amálgama de horas passadas. Todos os dias estou triste por uma ou outra razão e na maior parte dos dias, ninguém mesmo ninguém, percebe ou nota ou sabe disso. Certos momentos são muito duros, e muitas, tantas vezes sinto-me muito sozinha e sem saber como o Mundo se irá amanhar. Sinto saudades, vagueio nas lembranças e vou passando na mente tudo o que fui..

Não é fácil quando se esteve lá em cima e a vida nos forçou a descer tantos degraus..assim, lentamente, como quem não quer a coisa..

Dias cinzentos numa alma como a minha, tão cinzenta..

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(Mais um Dia da Mãe sem a minha Mãe, com uma dor gigante dentro do peito).

Ginásio em casa aos 48/…

Esta coisa de estar fechada em casa há 48 dias sem saber quando o trabalho recomeça e sem perceber muito bem como vai ser o regresso atribulado a um trabalho em que, por vezes, visito 10 supermercados numa manhã, dá-me cabo da cabeça. Como vou fazer? Mudo de luvas de cada vez que entro e saio do carro e entro num supermercado?! Coloco uma máscara diferente?! Andarei descansada e tranquila?!

Os ginásios não sei quando irão reabrir mas recebi de novo o e-mail do meu a solicitar autorização para os débitos directos: dão 3 alternativas sendo que a primeira, para continuar com a suspensão não obriga a que se faça nada. Desta vez, meus senhores não vos posso ajudar. Estou sem ganhar dinheiro e não consigo mesmo ajudar, quando os outros débitos me caem na mesma e há que gerir o homebanking de outra maneira. Honestamente não sei se volto ao ginásio. Descobri o exercício em casa, e tenho feito muito mais do que aquilo que faço no ginásio. Se as novas regras implicam que só se possa estar uma hora no ginásio (cada cliente) sendo que demoro sempre 20 minutos na passadeira, 14 no remo, e outros 20 na bicicleta sentada, não sei se adianta deslocar-me cheia de medo para usar 2 ou 3 máquinas. Ainda é algo em que tenho que pensar. Vão perder muitos, muitos clientes neste ano tenho disso a certeza absoluta.

Tenho um histórico no Youtube que pesquiso regularmente e alterno dia a dia as aulas e o tipo de exercícios: nuns dias faço treinos de glúteos, noutros de braços, o de abdominais faço todos os dias, faço aulas de step, de localizada, tabatas. Estes exercícios posso fazer com as aulas online que os Municípios disponibilizam, com ginásios a dar aulas online, com brasileiras, nórdicas, ou norte americanas. Há imensas tabatas com asiáticos, grupos, aulas curtas e super eficientes. Com esta oferta, com uma imagem boa na televisão, com a cozinha e água à distância de 3 passos, com possibilidade de fazer, interromper e parar quando quero (posso ir à casa de banho e ficar de top se tiver calor sem ter problemas que alguém me veja a barriga), com estas condições, gratuitas, como posso sequer equacionar arriscar voltar ao ginásio e apanhar a porra do vírus porque alguém espirrou e agarrou nos mesmos pesos que vou agarrar a seguir?! Preciso de ir comprar algum equipamento à Decathlon mas é quase certo que aqui continuarei nestes treinos em casa.

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