Das portas (quando se abrem)!

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Sou uma pessoa sensível.
Movida a uma força espantosa e guiada desde há muito por uma voz.

Há cerca de umas 2 horas tocaram à campainha.
Sozinha com o pequeno, não tenho por hábito sequer atravessar a antecâmara de acesso à porta de entrada, simplesmente ignoro.
Desta vez algo me impeliu a ir.
Espreitei pelo “buraquinho” e vi una rapariga nova, dos seus vinte anos, do lado de fora.
Ela sentiu que eu a estava a ver. Eu senti que ela sentiu.
E do nada percebi que iria abrir a porta.
Aquela menina, era EU há uns anos atrás. Debaixo de chuva, vento, noite cerrada, de computador e olheiras, palmilhando ruas e ruelas de aldeias recônditas.
A menina começou a falar na língua dela mas percebeu que era negro para mim e falámos em inglês.
O sorriso dela indicava que não precisava de moedas. Que o dia dela estava ganho por eu, estrangeira, ter interrompido o fogão, ter-lhe aberto a porta, e a olhado nos olhos.
Vim ver se tinha moedas, que sabia que não tinha. E pedi desculpa. E ela só sorria e agradecia em jeito de vénia.
Despedimo-nos com muito mais que um sorriso.

Fiquei muito sensibilizada.
O meu dia não foi o forte nevao que caiu, nem as dezenas de fotografias que tirei, nem as fichas que corrigi, nem os emails de trabalho que enviei, nem os trabalhos de fotografia que criei, nem o jantar, o aspirar, o chá que ofereci à minha amiga que me veio ver..

…O meu dia foi aquele olhar, de agradecimento, de cumplicidade enternecedora, cheio de tanto do que é importante.
Ela não poderia saber que eu já estive daquele lado, e sei como é duro. Violento até.
Ainda para mais de noite, no Inverno, num dia de forte nevao.

A Vida é muito para além do que imaginamos. Disso tenho, total certeza.

Boa Noite.
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