Trivialidades de uma senhora loura. 

Estou à janela do avião. 

Não gosto de ir no meio, ou vou no corredor ou à janela. Ontem fiz check in online e estava no 5 ali em frente à cortina da executiva mas mudei.. 

Aqui muito perto vai um casal. Devem estar em trânsito, vindos de algum destino tropical, porque ela tem uma cor de pele que eu teria se tivesse estado 4 meses nas Caraíbas e todos os dias na praia do meio dia às 4. Tem mais de 60 anos, mas quer parecer muito mais nova.. Tem uns calções daqueles que eu tb uso mas não nos aviões que vem da Escandinávia onde Agosto é Outono e há pessoas de botas, é loira, muito loira, tem extensões no cabelo [nunca tinha estado tão perto de alguém com e estou tão assustada] e passa o tempo a enrolar madeixas, uma a uma.. Tem unhas de gel mas o autobronzedaor deu-lhe cabo do bom aspecto, que isto de unhas de gel é bonito mas sabemos como é.. Traz uma cesta de verga daquelas da praia com pompons de lã multicolores, que é maior que as minhas 3 malas [trago a da máquina e mais duas]. 

Ele é professor catedrático e tem filhos de outro casamento e ela sei que viaja com frequência. Falam muito [imenso e é assim que eu vejo que sou uma pessoa tão contida]. Ele tem um portátil, ela um IPad onde lê alto para ele [e para quem ouve] uma entrevista a um outro professor catedrático que ele pede [insistentemente] que ela lhe resuma, falam das lembranças que compraram lá no destino turístico de onde vêm.. Eu continuo abismada com a cor de pele dela, dos braços, das pernas, da cara.. 

Ele trabalha no portátil, afincadamente, eu trato fotografias e entretenho-me a escrever. 

Está uma turbulência dos diabos. Que cagaço tenho eu [agora ainda mais] de andar de avião. 

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Ready. Steady. Go. 

Quando isto for para o ar, já o solo será português.. 
Nestes dias que antecedem estas grandes mudanças há uma amálgama de pensamentos e sensações; se por um lado quando se regressa é porque é esse o desejo, não podemos esquecer que 3 anos não são 3 dias, e há muita coisa que fica.. Foram 3 anos na mesma casa, no mesmo espaço que acolhi o melhor que pude, fiz daqueles poucos metros quadrados o meu canto, onde me sentia confortável. Decorei-o com o que me foi possível, tornei-o uma imagem de mim própria, e nunca quis mudar de casa porque aquele era o meu espaço.. 

Houve coisas que tiveram que ficar, a minha chaise-longue que tanto comigo partilhou, algumas lanternas, e as especiarias que queria ter trazido mas que ficaram. 

A minha casa vai ser já ocupada por uma família, uma família de refugiados sírios, a quem a Kommune irá doar nada mais nada menos que uns 1900 euros mensais para que paguem a renda… Não sou discriminatória com os refugiados, acho que merecem [como todos nós se for um dia caso disso] de uma oportunidade para [re]aprender a viver; mas custa-me que haja tanta discrepância à volta do Mundo, tanta desigualdade, tanta amplitude.. 

Foram muitas amigas as que deixei, foram muitas as lágrimas dos últimos dias, muitas palavras de incentivo, de [se calhar pela última vez] me agradecerem o que fiz e de tb eu agradecer o que fizeram. Não sou hoje a mesma pessoa.. Volto diferente mas acho que numa versão de mim mais forte. 

Estive retida uma boa hora na segurança do aeroporto, porque achei que poderia trazer comigo um presente de uma amiga que já foi embora tb.. Tinha um grande valor emocional e não a enviei nas caixas porque a quis aqui perto de mim, nem na mala grande a coloquei.. Sabem aquelas bolas de vidro com água lá dentro e com flocos de neve?!  Era isso. Fiz tudo ao meu alcance, sem sucesso. Foi atirada à minha frente  abruptamente para o separador de lixo respectivo. Deve ter-se despedaçado em mil bocados.. Não sei explicar como me senti, fiquei petrificada, mas regras são regras. 
Dormi muito mal e deveria dormir agora. Mas não consigo, o meu estado de alerta não se compadece com sonos, e esta turbulência está a fazer-me transpirar das mãos.. 

Também tenho fome. E muita. 

A comida está a chegar. 

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Apenas.. 

Já aqui disse que a vida é um ciclo. Acho mesmo que assim é. Acho mesmo que me preocupo em demasia, que sou burra, tonta, e mais não sei quantos adjectivos que nem vale a pena enumerar. 

É de madrugada e não consigo dormir. Achei que todas as lágrimas que tinha deitado me tinham levado a maquilhagem e portanto cometi o erro [que não posso nunca cometer] de ir dormir sem me desmaquilhar.. Não correu bem. 

Não sei se já aqui escrevi mas uma máxima que considero muito verdadeira é a de que “comportamento gera comportamento”.. Acredito mesmo nisto.. e acho mesmo que um dia nos cansamos [de muita e tanta coisa].. 

Sou hoje uma pessoa mais forte que gostava de ter deixado de ligar a pequenos pormenores, mas que continua a ficar magoada com uma série de coisas..e os outros sabem que me magoam, porque é óbvio que sim. 

Em tempos de encerramento desta aventura que foi viver num País distante, sei hoje muito mais do que quando vim.. Sei que apenas terei dos outros aquilo que me quiserem dar a mim, mas que com a máxima citada acima, também eu vou mudando.. 

Não sei se mágoa é a palavra certa, levo muita coisa no coração, sentimentos bons [e este é especialmente o do regresso] mas outros que também não esquecerei; acho que não havia necessidade de certas coisas, honestamente. 

Já sequei as lágrimas. Isso é um facto. 

Bom Dia. 

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E a Vida é mesmo assim. 

Faltam muito poucos dias para ir embora.

Em 3 anos deste país, não tendo vivido na capital mas a 20 kms, fiz toda a minha vida longe da cidade grande. Fui poucas vezes, talvez se contém pelos dedos [das mãos e pés].

Hoje tive que ir. Sozinha. E sozinha vejo tudo diferente, e quando se tem que ir a entidades oficiais carimbar documentos, e ir de um lado para o outro, vamos descobrindo a cidade como se de uma turista se tratasse. Vi coisas que nunca tinha visto, passei em ruas por onde nunca tinha passado, vi edifícios que nem sabia aqui existirem, por momentos senti-me em NY City tal era a dimensão dos edifícios e das ruas desconhecidas para mim.. 

Tirei imensas fotografias, verifiquei que se calhar até sei um bocadinho desta língua [tendo aprendido tudo por mim], constatei que andar de transportes é muitas vezes muito mais tranquilo e sossegado, principalmente se formos para o centro, para a downtown..[em poucos minutos cheguei]. 

Vou fazer uma colagem do que vi, e de como apanhei quase as 4 estações.. Aqui já é Outono, estavam 13 graus quando entrei no comboio, apanhei chuva, nuvens, sol radiante, vento cortante, céu escuro e cinzento e céu azul pintalgado de nuvens brancas.. Vi estrangeiros [muitos], muita gente a fotografar, com mapas como quem descobre algo novo.. 

Despedi-me da cidade. Podia tê-la conhecido muito melhor, mas acho que a conheço bem, embora possa não ter visto tudo com o detalhe que hoje vi. É uma cidade cara mas muito, muito segura. Não há medo, não há insegurança. 

As flores são maravilhosas e é muitas vezes com o colorido delas que se esconde o cinzento [na rua e na alma de quem nas ruas passa] que predomina…

Gostava de aqui ter vivido, porque gosto de grandes cidades mas não aconteceu; se assim tivesse sido não teria visto 1/4 das paisagens deslumbrantes que vi,nao teria vivido na neve como vivi, nem fotografado como o fiz. Na cidade a neve custa a agarrar, é muito raro a neve conseguir subsistir e aqueles amanheceres fantásticos em praias de que estou rodeada não se vislumbram em cidade. 

Gostava de aqui ter vivido, mas não aconteceu, e a Vida é mesmo assim.

Boa Tarde!! 

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