If love can save.. 

O texto que vos escrevo é dos mais duros que alguma vez escrevi.. Porque acredito que a vida nos reserva poucos momentos destes, porque é duro [muito duro] viver isto que eu vivi nesta véspera de Natal.. [não consigo imaginar a dor tratando-se de um familiar directo]. 
Tenho, desde que nasci, os mesmos vizinhos. Foram sempre os mesmos. Sempre as mesmas caras, os mesmos sorrisos, a mesma forma carinhosa de me tratar como se eu ainda tivesse 3 anos ou 4.

Um dos meus vizinhos, há mais de 2 décadas que sofre de uma doença que é muito dura e violenta e que já levou tantos amores, tantos abraços, tantas cumplicidades.. Cancro. 

O vizinho António pertence à legião dos fortes. Durante todos estes anos combateu a doença, sem nunca deixar que ela lhe levasse o sorriso e a energia. Fazia a sua vida normal, esquecendo a normalidade do que é viver uma vida sem dores e sem a ameaça de uma doença como esta.

Nunca o vi queixar-se. Lamentar-se. Vi sempre que todas as forças que [ainda] tinha estavam concentradas num propósito. O da cura. [Soube agora pela esposa que passou semanas, meses no Google numa procura incessante pelas hipóteses de cura, custasse ela o que custasse].

Os meus vizinhos e os meus pais vivem em comunidade. Plantam mais brócolos, mais couves, mais tomates, mais batatas para dividirem uns pelos outros. Há um sistema de troca que nunca conheci em nenhum outro local. Neste momento, o meu pai está furioso por não poder levar uma arroba de cura ao meu vizinho em troca de gramas de sorrisos.. Porque o vizinho António está a morrer e ninguém lhe pode valer.. 

O vizinho António tem posses. Muitas posses. Era um homem dos sete ofícios, com olho clínico para tudo, e que soube amealhar na longa carreira profissional que teve. Há  uns anos construiu um casarão. Vários pisos, pintada de uma cor que nem cheira a Alentejo, com piscina, churrasqueira e tudo o que fosse preciso. Deixou de ser o vizinho da frente, mas mudou-se mais para o lado, em frente, a 50 metros dos meus pais.. 

No sábado a minha voz disse-me: “Vai ve-lo. Pode ser a última vez”.. E quando já todas as famílias tinham o bacalhau no tacho eu estava nos vizinhos. Aguentei-me ao pé dele como só se aguentam os muito fortes. Não tenho palavras para descrever o que vi, o que senti. 

Cá fora não aguentei e chorei com a vizinha. Caramba conheço-os desde que me conheço a mim.. Como é possível ela aguentar tamanha dor.. 

Do alto da sua varanda, com um por do sol como só a minha rua tem, espelhado nas águas da sua piscina quase por estrear, caíram-me as lágrimas e engoli baixinho. Por momentos esqueci-me que era véspera de Natal e esqueci-me de olhar o telemóvel na busca incessante de quem espera. Naquele momento engoli em seco. Pensei que o amor podia salvar e vi que não. Se o amor pudesse salvar, o vizinho António não nos deixaria em breve. 

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[foi de olhos rasos de água que tirei esta foto]