April last one. 

Último dia do mês. 

Amanhã arranca um novo. Amanhã é tempo de regresso.. 

Custa-me sempre o regresso. Nunca estou preparada para ele, porque o vir é sempre algo que faço muito pouco na proporção que gostaria.. Aqui também chove, também faz uma ventania desgraçada, mas parece que tudo aqui é mais bonito, mais puro, mais genuíno. Adoro isto com todas as minhas forças. É aqui que sou mais Eu. Adoro esta terra. Felizes aqueles que a conhecem também. 

**

Advertisements

Do ler. 

Alentejo sempre foi sinónimo de biblioteca. Sempre fui uma “consumidora” nata de bibliotecas.. Comecei pela itinerante, a que vinha uma vez por mês à aldeia; consigo, fechando os olhos, sentir o cheiro da biblioteca, dos livros, a magia que vivia naqueles dias, a alegria que sentia.. 

Ontem foi dia de renovar os livros, novo carregamento.. Ler é viver numa outra dimensão, é sonhar, é viver os personagens como se aqui estivessem.. 

Já comecei. Trago aqui [segundo as sugestões] verdadeiras “masterpieces”.. 

**

Home. 


Vir ao Alentejo, é respirar casa. É viver a infância de novo. É [quase] tudo estar da mesma forma, igual, sem tirar nem por.. 
É entrar no meu quarto e reviver a pequena que ali habitou.. É ter ainda tantas fotos espalhadas, é estar nos cantos onde estudava e onde fazia birras, é o chão da casa ser o mesmo, e os estores tb, ainda que gastos da idade. É ver molduras minhas espalhadas, e encontrar cadernos meus com letras de várias idades.. É um parar de tempo que reconforta mas ao mesmo tempo me avisa de que a minha idade está a passar.. A um ritmo fugaz. 

**

Raining. 

E [quando tudo já fazia prever] o dia está cinzento, a chuva está instalada, o vento sopra com força.. É Inverno autêntico no último dia do mês.. [Ando há três dias a esconder uma dor de cabeça latejante, que disfarço com medicamentos mas que está aqui em permanência..]

Está de chuva mas estão aqui os velhotes. Há pão caseiro para o almoço que o forno a lenha já está ligado. 

Bom dia. 

**

Abraçar. 

Vir. 

Porque há alturas em que tem que ser. Porque há alturas em que preciso disso. E porque há alturas em que é urgente vir. 

Uma igreja repleta de vizinhos. Os que ainda restam. Alguns que não via desde a altura da saia dos sapos.. Do nada oiço o meu nome, o diminutivo do meu nome.. Gente admirada por ver e eu a amparar a minha mãe, eu, os meus braços e a sua muleta.. O momento da chegada ao altar, os sentimentos, e as lágrimas.. Fiquei de joelhos amparada pela filha mais velha [que nem me reconheceu por eu estar de óculos].. Sei que tb o dia dos meus há-de chegar. Não estou preparada para isso. Não estou mesmo.. 

A minha mãe já não teve força para enfrentar o cortejo até ao cemitério.. Ficou sentada no muro da igreja onde a vi sentar-se toda uma vida, quando com a sua energia me gritava para não me afastar. Esta foi a igreja onde casaram todos os meus primos, onde se baptizaram todos os que vieram depois de mim, e onde fiz os funerais de todas as pessoas que me foram chegadas. Continuo a não suportar o som do sino.. Desta vez no regresso do cemitério, já exausta do choro, com a cabeça a latejar [como ainda está e cada vez mais] e dos cumprimentos e dos “já vieste de vez, não foi”..dei assim com a minha mãe. No mesmo sitio onde tinha recomendado que ficasse, até que o meu carro a fosse buscar. Lá estava ela.. Já não havia a agitação do funeral, apenas me esperava o meu pilar. 

Que assim seja. Sempre. 

**

Ainda ontem. 

Nasci numa aldeia pequena.. Embora não distante dos grandes centros, é uma aldeia pequena.. Poucas casas, espaçadas entre elas, poucas pessoas, mas unidas sem saberem… 
Sempre lá vivi, sempre lá cresci. Até aos 18 anos habitei naquele monte [que de monte tem pouco, mas quem o baptizou assim lhe deu o nome] e foi nessa idade que saí para nunca mais voltar [terei alguma vez saído realmente?!].. 

Os meus vizinhos foram sempre os mesmos. Desde que nasci. Os meus vizinhos são as pessoas que ainda hoje me chamam pelo diminutivo, de igual forma e jeito como que me chamavam no tempo em que usava a minha saia favorita, a verde dos sapos.. 

Os meus vizinhos estão a morrer.. Ontem, houve uma excursão a Reguengos de Monsaraz. As costas da minha mãe já não a deixaram ir e a curiosidade do meu pai é menor que o seu amor, pelo que ficou também. A vizinha da casa a seguir, foi.. O vizinho Miguel concerteza a ama[va] na mesma proporção, mas tinham entre eles o acordo de não privarem os olhos da vizinha de ver sonhos distantes, de ver o Alqueva, as muralhas e as casas fantásticas que dizem Monsaraz ter.. Ontem ao final do dia, já noitinha, montado na sua bicicleta como diariamente, o vizinho Miguel foi ao correio situado junto ao café. Cumprimentou a minha mãe [de forma estranha segundo ela] e viria a cair, inerte e morto uns metros mais à frente.. Ninguém lhe pode acudir, tal a frieza fulminante do que o atacou.. 

A minha mãe sabe que eu estou deste lado [como eu sei que ela está do de lá] e ligou-me.. A minha mãe quis contar-me.. “Filha eu quero te dizer antes que o Facebook te conte”.. A minha mãe tem 76 anos, não percebe nada de computadores, nem sequer de Internet mas sabe que o Facebook conta coisas. Boas e más. 

A vizinha estava a ver o Alqueva quando o marido foi ver o correio e caiu morto. A vizinha não sabe se o marido estava indisposto, se terá sentido algo. Sabe apenas que quando saiu para realizar o sonho de ver o Alqueva, não sabia que a tarde lhe levaria o sonho do amor de uma vida.. Assim. De repente. Sem nada que o fizesse prever. 

Os meus vizinhos estão a morrer.. Uma casa de intervalo era o que distava a nossa vizinhança.. Os meus vizinhos estão a morrer, e há um nó na minha garganta, que não sai. 

Eu juro, mas juro mesmo que este é de facto o meu maior pesadelo. Que assumo aqui. Que a vida me leve sem que nada possa dizer. 

**