Crianças não deveriam [poder] morrer. 


Estou um bocado em estado de choque.
[Sei que ainda é de manhã, que na minha janela nem o sol nasceu, apenas oiço o cacarejar da galinha na vivenda ao longe que me indica ser um novo dia.. Já fiz a lancheira, organizei a mochila com o equipamento para a ginástica, a outra para a natação, a mochila dos livros e a bola e as luvas para jogar nos intervalos.. Já arrancou a semana para este pequeno..]


Ontem, no meio de uma tarde que não me correu muito bem [passei mal com o calor, comi uma salada com queijo fresco que teve as suas repercussões e instalou-se uma enxaqueca brutal], comecei a ler notícias que davam conta do desaparecimento de um pequeno de 10 anos numa praia do litoral alentejano.. O primeiro murro no estômago levamos com a notícia em si, o segundo levamos quando percebemos que a situação aconteceu precisamente no sítio para onde vais à praia com os teus mais especiais e pequenos seres.. De facto, aquele é o canto onde faço praia, aquele é o canto onde me instalo no Verão, eu e mais 500 famílias, para aproveitar a temperatura artificial que vem das turbinas da refinaria ao lado, a quietude, a transparência incrível daquelas águas.. Ontem um pai distraiu-se e num puff o mar levou-lhe o filho.. Um filho é um filho.. Um filho único [que não era o caso] faz-nos sentir a angústia do aperto que alguma vez sentiremos se algo de mal [por pequeno que seja] lhe acontece.. 
Através das redes sociais começaram a chegar publicações [muitas] e percebi que o pequeno era da minha terra.. Fiz contactos, contactei amigos [que nestas alturas sabemos que o nosso núcleo duro daquela pequena terra é muito chegado] e percebi que não conheço a criança.. Para além da infância, da ingenuidade, este menino partilhava a idade e o nome do meu.. Aquele menino poderia ser o meu!! Foi um soco no estômago, foi um murro em seco, que ainda dói. Falei com um dos mergulhadores que a esta hora entra no mar retomando as buscas, alguém que se mostrou destroçado.. Sei que há ali uma corrente. Já a senti por diversas vezes, e consegui sair.. Sei que o mar estava levantado [com vigilância, segundo esse amigo, essa zona estaria interdita], que no Verão isso não acontece.. 

Mas caramba, é a praia para onde vou, é a praia que considero segura e ninguém ontem conseguiu impedir que este menino fosse feliz, agora aqui, onde vivia com o pai e irmãs há 2 meses desde que veio de Angola..Aquele pai  se calhar [certamente], não conhecia aquela corrente, não sabia que com o mar [seja ele qual for] são precisos mil olhos..Distraiu-se, e há distracções que valem sonhos, fantasias e até uma vida como a deste pequenino. 

Isto não devia acontecer com ninguém, mas muito menos com crianças.. As crianças são inocentes. Querem apenas jogar à bola, rodar piões com as mãos, transpirar com jogos feitos sob um calor abrasador.. São crianças, tem uma vida pela frente, e ninguém as pode impedir disso. Muito menos o mar onde foram para se divertir.. 

Bom dia para esse lado. 

[A dor de cabeça não passou, a angústia com este caso, muito menos] 

P.S. As fotos em cima ilustram bem a transparência e quietude destas águas e os pés dos meus pequenos seres, que ano após ano, levo a esta praia, sempre com mil olhos, [e cada vez mais].  

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