Das minhas razões. 

Queria muito ter força e não ter sono para ser capaz de aqui escrever, agora, tudo o que quero escrever. 

Foi ontem que tive o impulso de ir ajudar. Num segundo agarrei no telefone e liguei para 3 quartéis: Pedrogão Grande, Góis, e Figueiró dos Vinhos. 

Por razões de segurança não fui aconselhada a ir para Góis pela dimensão do fogo que circundava a estrada de acesso. Figueiró dos Vinhos tinha voluntários suficientes e só Pedrogão me disse peremptoriamente que sim, que precisavam de mim. 

Estive muito indecisa. Mas achei que a minha hora de ir tinha chegado, que não poderia continuar impune a olhar para a televisão. Contactei a empresa em Lisboa e pedi aumento de prazo para a realização dos projectos desta semana, devido ao voluntariado. Acederam de imediato. 

Hoje, na viagem, muito cedo..fui de coração aberto e apertado. O cenário que vi, o cheiro que cheirei, o som dos inúmeros aviões, as lágrimas que ecoavam no cemitério no final de mais um funeral, a temperatura alta, o semblante nos rostos.. 

Não tenho força agora, tenho uma perna a que tenho que dar cuidados, com ampolas que rebentam e enchem, rebentam e enchem, mas sei que aqui trarei o que vivi.. 

Foi duro. Mas ter ido foi algo que não consigo descrever, embora prometa que o vá [tentar] fazer da melhor forma. 

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Dos gestos. 

Estou com aquele cansaço quase como quando fazemos exercício. Aquele cansaço mas que sabe bem. Não fossem as ampolas na perna direita de uma insolação que apanhei e que hoje deu de si e estaria  apenas com aquela sensação altruísta de ter feito o bem para os outros. Perdi a conta às centenas, milhares, de latas de salsichas, atum, sardinhas, feijão, arroz, cereais, barras de cereais, sumos, leites que organizei, aos cabazes que fiz.. 
Hoje arregacei as mangas e fui. 

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Nunca lá tinha ido…  

Porque há momentos em que é preciso agir. Sair, ir, ajudar, fazer o que for preciso, lesionar-se se assim for.. É preciso neste momento duro ir para o teatro de operações. 

Muito há a dizer, a escrever.. Os meus olhares, o que senti, o que percebi… De como se faz a generosidade e solidariedade de um povo, e de como era a única voluntária a ir sozinha, por sua conta e risco, sem ajudas, sem grupos, sem ir em sistema organizado. Só eu. Às vezes preciso de dar de mim, aquilo que tenho em demasia. Estou de missão cumprida numa jornada que se avizinha muito longa e demorada…

Voltarei aqui com tudo o que vivi. 

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