Por Pedrogão. 

Na quarta feira fiz-me ao caminho.. Assolada pela tragédia que via ao meu redor, com uma proximidade física e geográfico que mo permitia fazer, fiz-me ao caminho, por minha conta e risco. Não fui para dizer a A B ou C que tinha ido. Fui porque fui impelida a ir. E fiz muito bem em fazê-lo. 

A tragédia de Pedrogão Grande tocou-me muito. Não sei se pela proximidade física, não sei se pelas circunstâncias, se pela enorme perda de tantas dezenas de mortos, se pelas imagens de horror que nos chegaram, se pelo combate feito de solidariedade por bombeiros e, atrever-me-ia a dizer, por 90% dos portugueses. Há sempre 10% [se calhar mais] de insensíveis, que nada lhes toca, nada os afecta, de centrados que estão no seu próprio umbigo. São as pessoas que apenas existem, que não contam, nem servem para nada. Mas adiante.. 

Nunca tinha ido a Pedrogão. Não conhecia o acesso, muito menos a cidade. GPS no comando e lá vou eu de encontro aquele cenário de guerra.. O aproximar da zona trazia-me o cheiro a cinza, a ruína, a tragédia.. Tudo queimado, dezenas de kilometros de área ardida, sinais de trânsito queimados, casas destruídas, telhados caídos, pequenos focos a libertar fumo. Tinham passado 4 dias sobre o começo do incêndio.  

Dirigi-me ao quartel. Aí estavam concentrados os donativos alimentares que era preciso organizar. Nenhum voluntário quando cheguei, 7 chegaram do Algarve passadas 2 horas. Já eu e outra pessoa e uma menina de uns 6 anos tínhamos separado a grande parte dos bens, mas havia ainda tanto por fazer.. Fiz o minuto de silêncio na Câmara sem saber que ia estar a poucos metros dos membros do governo e de dezenas de jornalistas. O calor abrasador haveria de, em minutos, me provocar uma reacção na perna direita.. No regresso fui presenteada com uma pomada Biafine das dezenas que tinham sido doadas e a recomendação para que a camada de pomada nunca desaparecesse da perna. Assim fiz o resto do dia e nos subsequentes. 

Hora de almoço e resolvi limpar as mesas para os mais de 500 militares que haveriam de, alternadamente, vir comer. Esparguete com bifanas e qual o espanto quando percebemos que não havia para nós.. Das 2100 refeições já confeccionadas não havia esparguete para mais 10. Eu não fui lá para comer, eu até quase nem como, pedi autorização para comer uma lata de salsichas. . Os do Algarve revoltados, queriam comida. Seria as 14.40 que haveria de chegar um arroz de pato que viera não sei de onde, aquecido na Santa Casa.. 

Percebi duas coisas nesta operação:

1) Nao há interesse em ter voluntários civis. E não sei porquê, mas senti e percebi que assim era. 

2) Não houve qualquer preocupação, qualquer agradecimento, qualquer palavra que mostrasse gratidão pelo que estávamos a fazer. Não que o quisesse. Mas caramba, há um mínimo. 

Fiz os cabazes, fiz aquilo a que me havia proposto e só final da tarde regressei. De encontro ao meu carro, sozinho já, junto ao cemitério, regressei com o som continuado e intermitente das mais de uma dezena de aviões que sobrevoavam o espaço aéreo.. 

Senti que tinha cumprido a minha tarefa.. Senti que nos falta muita organização, que uma situação destas tem que ter forçosamente um bom líder, alguém que encaminhe, que oriente.. Que muitos querem aparecer, que outros querem sobressair no meio deste cenário, e outros tantos no fundo não são solidários, apenas tem interesses. 

Foi a minha primeira experiência num cenário deste tipo. Pelo menos com uma certeza fiquei: somos um país sem igual. Somos generosos, sensíveis, preocupados com o outro. Pena que muitos só o sejam nestas alturas. 

O balanço, dentro da grande desgraça, foi muito positivo. Não custa nada dar aos outros, aquilo que não te custa nada a ti. 

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Há alturas em que temos de ser fortes, em que não podemos desistir. Mas também há outras alturas em que não temos forças.. O meu blog.. Fará sentido continuar?! Interrogo-me sobre isto e não tenho resposta.. 

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Bom dia, sábado. 

Eu não precisava de ter acordado já.. Precisava descansar, dormir, mas não consegui.. 

Não sei se chove, se faz sol, sei que não me apetece já enfrentar o dia.. 

Que seja bom para esse lado. 

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