Verão. 

Há muitos anos que não passo sem estar nos primeiros dias de Agosto na minha casa, no meu canto, no meu sossego. Não me lembro [a não ser um ano ou dois] em que por razões profissionais não me foi autorizado férias em Agosto e por isso não estive lá. 
Ando em modo zombie.. Estou de férias e não estou.. Tento aproveitar aquilo que acabo por nada aproveitar.. Faço por que o pequeno sinta que são férias, deixo-o jogar no computador, faço as comidas que gosta, faz uma ficha com a periodicidade que a sua vontade consegue, e tento com que leia [que é algo, já percebi, que não podemos obrigar, e que depende dos miúdos].. 

Nem sempre o que nos acontece é a soma das nossas vontades.. Tantas e tantas vezes não é.. É apenas o resultado do que tem que ser, do que se nos vai aparecendo.. Chateia-me muito que [tantas vezes] o dinheiro seja o móbil desta Vida. E chateia-me ainda mais a situação precária a que me vejo vetada, com salários precários e pouca autonomia para fazer uma série de coisas. E chateia-me que assim seja, mas percebo que nada acontece por acaso e se assim é por alguma razão é. Já não choro [tanto], só quando as memórias me apertam o alto do pescoço e me sufocam, fazendo sair gotas pelos olhos e torcendo o meu sorriso para baixo.. Às vezes, e não há hora nem momento para isso, estou bem e do nada começo a chorar, basta uma lembrança, basta pensar, basta recordar.. Penso que isto pode acontecer com todos, embora muito poucos o consigam confessar. Eu não tenho problemas em assumir, porque já me habituei a esta minha estranha forma de ser.. 

Hoje é dia 7 de Agosto e não estou no Alentejo. Diz que é Verão, que há pessoas de férias e que há rotinas de férias que muitos já cumprem. Ontem comi figos de figueira e percebi que figos têm que ter os meus pais por perto. São associações que se fazem e quer se queira quer não, é impossível alterar. Figos têm que ter o sorriso do meu pai, a gargalhada da minha mãe, o cheiro do quintal deles, e eu a enxotar as melgas debaixo da figueira. Sem isso são apenas uma fruta como outra qualquer.. É como os figos da Índia que tenho comprado ao longo da vida.. Não sabem a nada.. Os figos da Índia da minha mãe, trazem as mãos dela carregadinhas de artroses, têm o amor que deposita em cada taça que me traz ao romper de cada manhã.. Isso não tem preço, nem se vende em supermercado.. 
A nossa vida nem sempre é a soma das nossas vontades. Essa é uma grande verdade. 

Bom dia, Especiais. 

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