Pink Panther and Sweet Cotton… 

Quando eu nasci a minha mãe escolheu para meus padrinhos, amigos de adolescência. Ela já não era adolescente mas lá achou que aquela amizade ía durar uma vida ao ponto de ter convidado o casal [logo os dois!!] para meus padrinhos. 

Nunca tive uma relação chegada com nenhum. Na minha vida toda devo ter estado com eles umas 9, 10 vezes. Ou até menos. E vivíamos aqui super perto. Sempre soube que eram pessoas de bens embora nunca o tivesse sentido. 

Nunca levaram muito a sério esta afilhada, e eu nunca levei nada a sério aqueles padrinhos. Uma vez numa feira, fiz uma birra. Fazia birras nas feiras porque queria ter muita coisa que não tinha.. E lembro-me que uma vez, numa feira do monte, nos anos 80, chorei baba e ranho [tão alto] porque queria uma pantera cor de rosa.. E coincidência ou não, os meus padrinhos passaram no corredor e perante tamanha choradeira e talvez de consciência pesada pela ausência de sempre, compraram-me a pantera. Saí vitoriosa mas percebi que aquele acto era uma situação pontual. E não os olhei de forma diferente, percebi que aquela dádiva era um pouco estranha.. Dois anos ou três depois volto a encontrá-los noutra feira.. Deram-me uma nota de 20 escudos para comprar algodão doce. Fiquei radiante, corri com a nota verde na mão e a porra do algodão doce custava 100 escudos. E eu que não tinha noção nenhuma do dinheiro, fiquei incrédula, porque não percebia como poderia ser possível tamanha forretice, ainda para mais sendo eu uma criança.. Recordo tudo com detalhes até hoje.. Estive com eles estas duas vezes e quando tive um acidente de viação grave eles telefonaram a dizer aos meus pais que me pagavam todo o conserto de reparação da minha boca. Disse à minha mãe que antes queria ficar desdentada a vida toda. Nessa altura tinha 20 anos e um orgulho do tamanho do mundo. Não aceitei. 

A minha madrinha morreu hoje. Como que por uma coincidência que ainda não percebi porque acontece, amanhã vou a outro funeral com a minha mãe. Ela continua a dizer que eram muitos amigas e eu respeito isso, assim como a minha mãe percebe que se calhar deveria ter escolhido familiares para padrinhos.. Sei que a minha mãe não vai aguentar muito de pé mas faço questão de a acompanhar..

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Different. 

Tenho, há muitos anos, dilemas sobre o que comer de manhã…Nunca me apetece nada, farto-me de cereais, papas de aveia e afins.. Aqui, como figos com pão. E fico tratada.. 

Habituei-me a gerir as saudades, a falta, e costumo aceitar dos outros aquilo que me queiram dar.. Sofro muito com as distâncias. Muito mesmo e tanto que acho que ninguem já acredita, pensam que falo por falar.. 

Por aqui é Verão e eu até tenho medo que este tempo por aqui se acabe, que tenha que voltar de novo, que comece a labuta dos dias com almoços evitados por estar sozinha.. 

[Saudade é o meu nome do meio.. Garanto que sim].

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Da minha infância. 

Aqui sou mais eu.. Aqui sou muito mais para além do diminutivo do meu nome.. Aqui sou lembranças e memórias forradas a recordações.. Em cada esquina vejo uma pessoa que conheço desde criança, em cada hora que passa tenho um local por onde passo e por onde já passei.. Pessoas que conheço desde que, em criança, ía com os meus pais à Vila.. Sandália inglesa nos pés, saia rodada no corpo e muitos sonhos na alma.. 

Há pouco mais de uma hora num restaurante, olhava para um dos empregados e sabia que o conhecia.. Que trabalhava nalguma loja ou local onde ía em pequena com os meus pais.. Não sabia se seria no banco, se no hospital, se numa farmácia… Resolvi perguntar.. Os meus pais a ouvir, curiosos também eles.. E lá veio a resposta.. “Foi no grémio, trabalhei lá 17 anos”.. Eu ía com o meu pai ao grémio. Ele ia comprar adubo e sementes. Eu sei de cor o cheiro do grémio e sei como se fosse agora que aquele senhor nos atendia, nas corridas doidas das nossas voltas, sempre em contagem para apanhar na “garagem” o autocarro que nos traria de volta a casa.. 

Isto não siginifica nada para ninguem, que eu sei, mas para mim, são muito mais que recordações ou memórias.. 

Boa Noite para esse lado. 

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