Do fazer a diferença.. 

Hoje o dia foi diferente.. Começou diferente, acabou diferente, e teve muitos momentos diferentes no meio.. A prova viva de que hoje estamos bem, amanhã já não estamos e devemos agradecer cada dia que passa, cada hora que passa.. 

Não gosto de ir a funerais. Acho que ninguem gosta mas para algumas pessoas é apenas mais uma pessoa “que vão acompanhar” [é assim que se diz aqui] e portanto nada que marque muito.. Não sou dada aos meus padrinhos confesso, mas sempre me recordei de um irmão de um deles que sempre foi muito gentil comigo. Não sabia se era irmão da madrinha ou do padrinho.. Sabia que era alto e que não o via desde os meus 7 anos.. Não sabia nome, nada. Tentei explicar a uma tia minha quem era, que o senhor estava sempre nas minhas lembranças pela sua gentileza. Ela disse-me que tinha morrido há muito tempo. Fiquei incrédula, e recusei acreditar. Havia muitas dúvidas e a minha tia de repente diz: “Será aquele ali, o António?” e do nada eu corro para ele e desato num pranto.. É irmão da madrinha, tinha acabado de perder uma irmã e tinha em frente dele alguém a chorar porque lhe tinham dito há minutos que ele havia morrido anos antes… Ele disse-me tratando – me pelo diminutivo do meu nome que um dia, com uns 4 anos lhe tinha perguntado “O senhor é que é o meu padrinho não é?”.. Era o que o meu inconsciente achava que deveria ser um padrinho, alguém que nos trata da forma como ele sempre me tratou.. 

No retorno para casa, com os meus pais no carro, já de regresso, olhei na cidade para um senhor que caminhava muito tortinho. Saco de compras pesado e olhos postos no chão. Reconheci o senhor dos tempos de escola. Sabia que vivia na primeira aldeia a seguir à cidade, uns 3 km muito fáceis de carro mas torturantes com 20 kgs de compras sob um sol de 30 graus à uma da tarde. Os meus pais diziam que era o Alcides e que sim, vinha a pé para casa. Passei por ele e na rotunda fiz inversão voltando à estrada. Disse aos meus pais que o iria levar, que não podia não o fazer.. Parei o carro, saí, carreguei-lhe o saco e [por isso lhe tomei o peso], o mini saco [que me pediu imenso cuidado por ter um radio  novo dos chineses que comprou para ouvir o relato] e o que pensei ser uma árvore de fruto e que afinal era um cajado. 
O Sr Alcides tem 79 anos. Vai a pé à cidade, ao supermercado. E volta. São 3 km e ele demora 3 horas no regresso porque precisa de parar para descansar. Eu levei-o à porta de casa mas ele disse que o podia deixar na intersecção da estrada. As eleições deste ano já lhe deram a estrada de casa alcatroada e ele não cabe em si de contente.. 

Vim com um coração apertado. Às vezes acho que não me pertenço a este mundo. Que não era aqui que gostava de estar. Que não era esta pessoa que gostava de ser. Que nada me dá a satisfação maior que fazer o bem aos outros. Que foi para isso que nasci e pouco mais me importa…
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