Da bailarina. 

Uma das coisas de que gosto na praia é o facto dos inúmeros e diferentes tipos de pessoas, personalidades, corpos, que por ali aparecem. É dos locais que compõem a sociedade aquele onde se notam menos os escalões sociais [os carros ficam estacionados bem longe e as etiquetas da roupa de banho são pequenas demais]. 

Entretenho-me muito na praia só a observar e nem sequer fico parada ou pasmada a olhar para ninguém.. Vejo crianças com os seus baldinhos, vejo idosos, as revistas e os livros que se lêem, vou reparando em quase tudo…  

Há uns dias já tinha visto esta senhora. Inicialmente juro que não percebi o que se passava. Se tinha dores nas costas e estava a fazer alongamentos, se queria fazer agachamentos para treinar.. Depois reparei que parecia dançar.. Movimentos em pontas e saltinhos como se estivesse a dançar o “Lago dos Cisnes no areal”.. 

Hoje voltou a aparecer.. 

Não é uma menina, é uma mulher entre os 40 e os 50 anos ou uma cota bem conservada que já passou os 50 há muito mas está ali para as curvas. Percebi hoje que ou é solteira, ou divorciada, ou apenas sozinha sem respeitar nenhum dos critérios. Faz-se acompanhar dos pais que já têm alguma idade e pede ao pai que lhe fotografe os movimentos.. 

Começa por fazer aquecimentos.. Enche o areal de espanto porque faz de conta que está lá no canto dela sozinha. Só que não. Tem centenas de pessoas a observá-la. E ela sabe disso.. 

Acho que é bailarina. Concentra nos passos de dança e na postura, toda a sua atenção. Caminha como se andasse em pontas. Não cheguei a perceber se era romântico bonito, ridículo, exibicionista ou somente parvo.. Não consegui perceber a linha que separava aquilo que ela devia fazer ali ou não. Por mais em forma que esteja, por mais descontraída que seja, por mais silly Season a rodea-la. Fotografei-a abertamente porque ela queria isso, ela quer atenção. Não percebeu que este não é o palco onde as pessoas vão vê-la porque querem.. Que este palco é muito amplo e ninguém gosta de olhar os surfistas a apanhar ondas e ter uma borboleta rodopiante entre eles.. Muito estranho mesmo. 

A esfera do público e do privado daria pano para mangas com este exemplo. Ela não faz mal nenhum é certo, não é nada de errado, mas há coisas que não são para praias cheias de gente, numa costa com uma extensão inacreditável e cheia de praias desertas..Para treinar os passos tudo correria melhor.. mas não haviam mirones, e há pessoas [como o caso desta senhora] que precisam disso, como se não desse pica nenhuma fazer aquilo sozinha, sem espectadores…

Não sei se é bailarina. Se não for é tudo ainda mais parvo do que imaginei.. 

** 

Advertisements

Coisas simples: correr. 

Correr ao ar livre não tem comparação, adoro, simplesmente adoro. 

O meu percurso é sempre o mesmo, é ir e voltar. São 6 km que me sabem pela vida.. As vezes ando porque não consigo, sair às 8 da manhã para correr e já estarem 30 graus é complicado, mas dá um grande gozo..Uma praia ainda deserta, o som do mar, os pés na areia..  

Quem me dera ter este percurso sempre para correr. Maravilhoso, mesmo maravilhoso. 

**

Do estar vivo. 

Hoje em dia é assim. Como se quem não aparece nas redes sociais, esteja morto ou desaparecido. As pessoas partem do pressuposto de que toda a gente tem Internet, em todo o lado. Totalmente falso. 90% das praias da costa alentejana não têm rede móvel, quanto mais Internet móvel. Não se consegue fazer nada com um telefone para além de tirar umas fotos e tratá-las nos programas de tratamento que funcionam offline. 

Não postar nada nas redes sociais não significa que nos estejamos a borrifar seja para o que for.. Significa que não temos essa possibilidade, que muitas vezes não o conseguimos fazer…Deixei de ver constantemente se tenho rede, porque sei que não tenho.. Desisti de tentar abrir uma página que fosse, porque sei que não abre, também quase desisti de pedir passwords de redes Wi-Fi. Não funcionam, não abrem, e nem percebo porquê. 

A Tragédia dos incêndios corrói-me a alma.. Desde há muito.. Ver as imagens na televisão é penoso.. Pensar no que passam aquelas populações, no trabalho árduo daqueles homens, bombeiros voluntários, muitas vezes arriscando as suas vidas.. E custa-me estar de papo para o ar a apanhar sol. Como se não tivesse esse direito. Juro que é o que sinto. Não consigo postar nada mas ainda assim juro que não me apetece postar nada, juro que não..Como se perante tudo isto que se passa no mundo, ataques terroristas, incêndios provocados por almas dementes, nada fizesse grande sentido.. 

[Não estar activo nas redes sociais não quer dizer que esteja morta. Não mesmo. Mas vir aqui é obrigatório para mim].

**