Night. 

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Glória a vós. 

O estudo mais megalómano que faço, este que tenho esta semana, faz-me estar dias fechada nas mais variadas insígnias. Para além de acabar sempre extenuada, com vontade de comprar umas costas novas, tenho sempre experiências novas a cada loja que vou e estou, invariavelmente, mais de 3 horas.

Hoje conheci a D. Glória. No corredor dos cereais ela questiona-me sobre o preço das “Estrelicas”.. Achei logo maravilhoso este nome, “Estrelicas” é-me muito mais apelativo que Estrelitas ou Stars ou os milhentos nomes..

A D. Glória estava sozinha. Com as suas duas muletas e uma dificuldade enorme em mover-se, apoiava-se no carrinho. Meia dúzia de artigos comprados e um peso maior que as dores, que percebi desde logo ser complicado. Estava quase a acabar o meu trabalho. Sentia-me a desfalecer e mal terminei o projecto, corri para a caixa para comprar algo para comer. Lá estava a D. Glória. Ofereci-me logo para lhe pôr as compras no tapete. E nos sacos. E carrega-las onde fosse necessário. Eram 3 pacotes de “Estrelicas”, um pão, pães de leite, 2 pacotes de arroz. Eram 3 kg se fossem e para ela e para as suas próteses nas duas pernas, eram mais de 30. Perguntei onde queria que lhe levasse as compras. “Até ao táxi, menina”.. Lá fui ao ritmo dela, mala de tablet e todos os sacos dela mais a malinha dela que dizia Portugal. Mil cuidados a atravessar a estrada, que as passadeiras ainda me moem a alma e as acelerações também. Perguntei-lhe o nome e ela disse, “Glória”. Só vem à cidade para vir ao médico, vem de táxi porque não tem outra forma. Perguntou-me o meu nome, e disse “Mas que menina tão bondosa, que anjo, porque Deus não me deu uma filhinha?!” E eu disse que a minha função na vida, mais do que qualquer outra é ajudar os outros. Queria dar-me o euro do carrinho que recusei veementemente, queria tomar um chá comigo, um café. Ela estava sozinha e eu tb. No fundo a nossa solidão era comum. Levei-a ao táxi, abri-lhe a porta, fechei, recomendei prudência e cuidado ao taxista e o favor de lhe pôr as compras em casa. Deu-me 2 beijos, um abraço e um enorme sorriso.

Queria ter-lhe dito que ela tinha sido a “Estrelica” do meu dia. Acho que no silêncio, ela percebeu.

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