A Nicol e o racismo. 

Nunca fui racista. Cresci numa terra onde 70% da população são retornados, pessoas que foram obrigadas a regressar das ex colónias para Portugal com uma mão à frente e outra atrás. Tive sempre colegas e amigos, raparigas e rapazes, pretos, mulatos, mestiços, cabritos. Isso fez-me sempre olhar para todos de forma igual, sem qualquer ponta de sentimento racista. Não pensei, na minha inocência, que existissem terras sem pessoas de outras etnias ou com outros tons de pele. Só saí da minha terra aos 18 anos para estudar, nunca, até lá, me ausentei ou viajei para onde fosse, tendo total desconhecimento do que era a vida noutras cidades.
Há 5 anos quando fui viver para fora, para um país nórdico, senti pela primeira vez o sentimento de não pertença, de não ser igual aos outros, de não ser loura como todos, de não perceber pitada da língua falada e/ou escrita. Foi um choque brutal sentir-me, nos primeiros tempos, olhada de lado. Aprendi a viver com isso, mas nunca quis continuar a viver num país que não o meu, qualquer que ele fosse. O sentimento de não pertença não tem preço nem valor, e foi algo que nunca ultrapassei. Lá, como na minha vida toda, sempre percebi que não me corre nas veias o gene do racismo. Amei todas as crianças, pretas, amarelas, indianas, chinesas, polacas, ciganas, nórdicas, alemãs, todas, sem excepção. O meu filho cresceu a perceber que a cor da pele e a língua que se fala são apenas pormenores. A mais valia da experiência internacional que teve entre os 5 e os 8 anos, foi muito para além do aspecto bilingue que hoje tem, foi essa estrutura mental, que o faz respeitar e poder apaixonar-se, no futuro, por alguem com outra cor de pele, ou de outra etnia, e perceber que nem todos nascemos onde estamos. 

Numa cidade que vive do Turismo e da multiculturalidade como é o caso do Porto, chega-nos um relato assustador de uma rapariga colombiana, Nicol, que foi vítima de agressões racistas e xenófobas na noite de S. João, a noite de festa anual da cidade. Isto é tão, mas tão triste e humilhante que me recuso a acreditar que quem fez isto não venha a sofrer um castigo bem merecido. Não se chama “pretos de merda” a ninguém, podem se chamar pretos mas apenas o pode chamar quem o diz sem a mais pura intenção, quem poderia ter escolhido um preto para amar, ou um preto pequeno para adoptar..

Quero muito poder viver num país onde o racismo não existe. Quero acreditar que é possível, e gostaria que já tivesse sido erradicado. Assumo [não compactuando], que para certas pessoas possa ser um constrangimento o envolverem-se com pessoas de outra cor, de outra etnia.. O que não consigo aceitar é que as tratem, em que situação seja, com supremacia ou violência! 

Isso nunca, jamais, em terra e tempo algum. 

**
 

Advertisements