De criança.

Há vícios que passam de geração em geração. Já aqui falei de como sou parecida [em alguns pequenos detalhes] com a minha mãe, com a minha avó [materna]. Nunca vi a minha mãe aborrecida com tempos de espera, lá se entretém observando, olhando, fazendo alguma coisa sem resmungar com o tempo que custa a passar. Este seu pormenor, haveria de se modificar um pouco agora com a idade porque já a vi reclamar dos tempos de espera na fisioterapia, ansiando que a ambulância a leve de volta a casa o quanto antes. A minha avó também não reclamava. Sempre me lembro dela com a sua cesta de figos à cabeça que ía vender à praça e muitas vezes tinha que esperar muito pelo autocarro que a traria de volta. Nunca reclamava. Eu também não reclamo. Sou capaz de ficar horas à espera do que seja sem me entediar, sem reclamar.

Houve duas coisas que herdei das duas. O gosto por ver pessoas a dançar, o gosto pelo som do acordeão. Na sexta feira passada tive o prazer de ir a um baile com os meus pais. A minha mãe já não dança [a coluna não lho permite] mas o meu pai gosta de dançar. Sai de mansinho, em busca de pares para dançar as modas que gosta. Eu, como desde pequena, fico com a minha mãe. A observar os pares, a ver as danças, a ver quem acerta o passo ou quem está longe disso [é um pouco triste ver um par que não acerta, mas às vezes o gosto pela dança é mais forte que o acerto e um dança para norte e outro para sul, sem que isso tenha qualquer relevância]. Os bailes são um pouco como a praia, não há ditaduras, nem os bons pares se medem por classes sociais. Há pessoas jovens, de idade, humildes, que dançam maravilhosamente bem, há ricos poderosos que não dão uma para a caixa.

Fartei-me de rir. Eu não danço, ou melhor, danço apenas com o meu pai ou com as minhas primas. Nesse dia o meu pai não me convidou e o único convite que tive veio de um desconhecido de meia idade, com apenas dois dentes na frente, a quem tive que dizer que não, não pelo aspecto surreal da dentadura, mas porque, de facto, não sei dançar. Ele ficou incrédulo, não queria acreditar que lhe dissesse que não. A minha mãe só se ria, porque os bailes ainda são dos únicos momentos que lhe arrancam gargalhadas.

[Encontrei por acaso este vídeo no meu feed de Facebook e adorei. São simplesmente pessoas a dançar, mas como eu gosto disto].

**

Advertisements