105.

Se fosse viva a minha avó faria hoje 105 anos.Não há ano em que não me lembre. 

Recordo com ternura as suas mãos que tenho decoradas, veia a veia, com a sua aliança ainda, dezenas de décadas depois de ter enviuvado, a forma de se rir [a minha mãe está cada vez mais parecida], a forma austera como tratava os netos, como, pequenina, lhe pedia rebuçados de meio tostão do jarro e ela, sempre meia enfurecida, me dava a contragosto, a forma como me chamava para com ela ir dar de comer aos animais ou ir apanhar maçãs bravo esmolfe, as noites em que dormia com ela por não haver mais camas, em cima do colchão de palha, tão torto, tão torto que ela ficava como que num primeiro andar e eu num -1, as flores que tinha, o pão que amassava e cozia sempre de lenço branco na cabeça, um cálice com líquido daquele que não virava, que eu achava tão mágico e que ela só me deixava tocar por segundos dizendo sempre “vá, se não pode partir-se”..

Tenho tantas saudades da minha avó. Não queria que tivesse sido outra pessoa, carinhosa, fofinha, e meiga, a minha avó foi sempre assim e eu gostei sempre dela, quando em Lisboa no lar de idosos, ilegal e que depois fecharia, a visitava, e em todos os 24 de Dezembro em que, religiosamente, a visitava no lar da terra que me viu nascer.. 

Saudades, avó, onde quer que esteja, tenho muitas saudades suas… 

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