Do ter um animal…

Sempre tive o sonho de ter um gato, mais do que um cão. Na infância sempre houve cãezinhos pequenos em minha casa mas confesso que nunca tive uma ligação extremosa aos bichos, isso foi a idade que me trouxe.

Continuo a ter medo de cães que não conheço, de gatos com quem não tenho ligação.

Os meus pais o ano passado adoptaram o gato que tinha sido adoptado pelo meu irmão. Pelo Verão apareceria abandonado este gatito que baptizaram de Jeremias. A cumplicidade entre os meus pais e o Jeremias não foi imediata, começaram por ser muito bravos com ele, quase ríspidos e pouco mais atenção lhe davam que a ração no prato. Não havia ligação, cumplicidade ou afeição por aquele bichano. O ano passado ele estranhou-me, afinal era toda uma família nova que ele tinha que conquistar e tudo foi muito rápido. Mal me conseguia chegar a ele, era arisco e tinha mesmo medo dele. Passou um ano e acho que o conquistei (e ele a mim, confesso). Consigo demoradamente fazer-lhe festas, adormece praticamente sob as minhas mãos e sente-se tranquilo (quando está tenso abana o rabo mesmo com os olhos fechados).

Há uma sensação de paz enorme ao ver um animal nosso dormir sossegado. É como se naquele momento percebessemos que o mundo e a segurança daquele bicho somos nós. Cabe-nos a nós cuidar deles, tratar deles, zelar pela sua segurança. Sinto falta quando o Jeremias não está na cadeira dele a dormir o seu sono, ou quando não me aparece. O que me liga ao Jeremias (e o que o liga a mim) é completamente desprovido de interesse, é puro, como só os animais podem ser. Adorava ter um gato só meu, confesso.

[Da série “Um dia vou ter um gato”. Mas mesmo. Sem dúvida.]

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