Sextas duras…

Porque precisava de respostas que de outra forma não conseguia obter, fiz-me ao hospital para fazer uma espera ao médico. Chegada ao estacionamento percebo a dureza do dia e não fosse ter feito uma espera a um senhor que atravessava a rua, de penso no braço, já terminadas as análises, e ainda agora esperava por um lugar.

Sala de espera com mais de 100 pessoas. Homens, mulheres, idosos acompanhados dos filhos, bombeiros, doentes em macas de ambulância e imagine-se, qual série de televisao dois reclusos e dois guardas prisionais. Porque os reclusos também ficam doentes e pelo menos aqueles momentos têm um bocadinho de toda a liberdade que lhes falta. No átrio de acesso às salas dos médicos estou eu, as auxiliares, um doente em maca, paraplégico, cujo bombeiro estimula para mexer devagarinho um braço com o outro. Ao meu lado mesmo em frente, os dois guardas prisionais. Novos, de telemóvel em punho, passando o tempo no Facebook. Em frente os dois reclusos. Parecem não conhecer-se ou então não se dão bem. Porque vir ao hospital na mesma carrinha não faz com que se inicie uma amizade. No mais novo, um ar de revolta constante. Não sei se de arrependimento, mas de raiva e revolta sim. O outro, tenta conversa com os guardas. Parece-me mais conformado com a vida e com a sentença. Olho sem problemas nos seus olhos. Nos dos dois. Vêem que estou nervosa porque isso também se vê. A eles além da saúde, ainda lhes falta a liberdade. Os braços do mais novo são uma rede de tatuagens. Bem feitas, com bom gosto. Um emaranhado que não despega, nos dois braços, de cima abaixo. Na cara tatuou duas pequenas lágrimas, uma em cada olho. Tipo Quaresma. Acho aquilo estranho mas não condeno. Vem-me à lembrança uma das minhas séries preferidas “Prison Break”. Aqueles braços tatuados, naquelas mãos posicionadas nas algemas. Nunca tinha pensado que com as algemas e assim manietadas, até as mãos ficam diferentes. Agarro no telemóvel e fingo que vejo qualquer coisa. Só quero captar as mãos. Só isso.

Desvio o olhar e concentro-me na resolução da minha questão. Em minutos o médico vem à porta dar indicações para entrar o primeiro recluso. Bate com os olhos em mim e rapidamente percebe que quero respostas. Que me dá sem sequer lhas perguntar. Ali no hall, com o dois guardas e o segundo recluso. O novo, o das tatuagens já aguarda sentado a sua consulta. Terá um problema que o aborrece, que lhe causa desconforto ainda mais do que aquele maior que tem para enfrentar sabe-se lá por quantos anos. Lá fora a chuva cai. Nem sequer é miudinha, é daquela grossa, a avisar que as sandálias têm que ser encostadas.

Depois das respostas, saio. Trago aqueles homens na memória. Os dois reclusos. O paraplégico. O bombeiro que puxava por ele. As pessoas na sala de espera à procura de esperança e respostas. Continuam a chegar pessoas. Umas atrás das outras. Há um ar de enfado nas empregadas. Queriam estar em todo o lado menos ali. Não há um sorriso. Nem um bom dia aberto e descarado. Para ninguém.

Em poucas horas atravessamos duras realidades. Que nos marcam e nos fazem pensar. Levo a máquina fotográfica para ir fotografar. É a minha terapia e como qualquer terapia não se deve falhar.

Chove torrencialmente. O carro está encharcado e tenho que dar o lugar a outro. Que o parque está cheio. A sala de espera também. E as centenas de cabeças também.

(Foi ontem. Mas só hoje consegui escrever).

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