Nada será igual…

Estive muito tempo sem vir. Os últimos tempos foram tudo menos fáceis. A prioridade da minha vida, do meu foco, foi o meu Pai. Não o consegui salvar. Num mês perdeu quase todas as faculdades, olhar, comer, sorrir, andar, a motricidade fina, quase tudo o tumor lhe tirou. Menos a consciência.

Imaginava o quão doloroso fosse perder um Pai. Pensava que estava preparada mas há sempre um lado, o do desconhecido, que só vivemos e sentimos quando as coisas acontecem. O meu Pai fez tudo por mim e agora era a minha vez.

Sou filha da humildade, de gente simples, poupada e que sempre me ensinou a lutar. Nunca tive nada de mão beijada, nunca tive facilitismos, comecei a trabalhar cedo e fui sempre incentivada a isso. Sempre vi nos meus pais pessoas de trabalho. Toda a Vida.

Não imaginei perder o meu pai desta forma, tão abrupta e inesperada. Ao mesmo tempo sinto que tive tempo de lhe dizer tudo. Caramba tinha tanta esperança que conseguissem po-lo a andar de novo, a sorrir e a conversar.. Só queria que tivesse sido capaz de falar comigo nesta fase final mas não foi capaz, já não era capaz…

A doença leva-nos quem amamos..Tão triste não poder tê-lo de novo comigo.. É uma dor gigante, sem fim. Levei a vida a angustiar com este momento e ele chegou. Levou-me muito. Do que sou, da garra que tenho. Mas descobri que tenho muito da fragilidade do meu Pai mas tenho muito da força inesgotável da minha Mãe. Fiz-lhe a barba, cortei unhas, fiz massagens, tudo tentámos. Não se olhou a meios para lhe proporcionar o melhor conforto na fase final. Mas a vida já lhe tinha traçado um outro rumo. Que já não era aqui, junto a nós..

Estou preta na alma e no coração. Não visto (porque não consigo) nada para além de preto. Nem um apontamento. Não consigo sequer vestir branco o que traz a paz (que ainda não tenho).

Sei que apenas não está fisicamente. Estará sempre junto a mim e sentirei (sempre) as suas mãos junto às minhas imensas vezes. Fotografei-as vezes sem fim. Recordarei as últimas caminhadas, os últimos sorrisos, as últimas réstias de esperança que foi obrigado a perder.. Recordarei o “Não vás, filha” de há alguns dias e o meu engolir em seco. Ele estava de olhos fechados e eu chorava (sem ninguém ver). Fui sempre o gigante com pés de barro..O que não dá o braço a torcer, que enfrenta as enfermeiras mesmo quando sabe que vai receber olhos revirados. Não se aposta numa doença terminal aos 80 anos. O fim é a morte e se puder acontecer lá longe do hospital sem contar para as Estatísticas, tanto melhor.. Não sou pessoa de me calar e o livro de reclamações estará pronto para receber o meu depoimento. Já não tenho nada a perder. Perdi o meu Pai e nada, nunca mais, será igual…

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