Some color on me.

Não tenho conseguido vestir cores mas tenho tentado fugir ao preto integral na esperança que me faça bem, que me dê algum ânimo. Todos estes dias, por uma razão ou por outra, têm sido complicados para mim. Recebi finalmente o relatório da Anatomia Patológica do meu Pai. Chegou precisamente um mês após a sua morte. Quando já nada havia a fazer. Mas fiz questão de o receber. Deixarei para um próximo texto onde consiga descrever tudo o que se passou, como tudo foi tratado e como surge um diagnóstico final tão completamente diferente de tudo o que se esperava. De como é assustador pensar que neste país (e noutros provavelmente) as pessoas morrem sem que à data da morte se soubesse exactamente o que têm. Não sei se a culpa é dos médicos, do sistema, ou da própria doença, que qual menina que gosta de se mascarar, interpreta vários papéis, assumindo sabe-se lá o quê, em diferentes momentos.

Ao ler o relatório senti-me completamente Impotente. Devastada. Arrepiada. Assustada.

Hoje no meio de toda esta escuridão, tinha que me forçar a alguma cor, a algum sentido. Tomei banho, sequei o cabelo, saí para trabalhar, inspirei o sol, chorei a conduzir, limpei as lágrimas, comprei um chocolate (que comi quase metade), e regressei, sem falar com ninguém. As pessoas a quem digo boa tarde não contam para a minha estatística. Não podem contar ainda que lhes deseje Feliz Natal. Não as conheço, não lhes sei o nome, assim como elas não me conhecem as lágrimas, tampouco as expressões faciais e muito menos o período negro que atravesso.

Não sei se a cor me ajuda, se o chocolate me traz alguma ilusão, ou se me sinto pelo menos satisfeita comigo por ter conseguido trabalhar todas estas semanas. Sei que pelo menos tento. A cada hora de cada dia.

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