Das crianças.

Choro (quase sempre) a ouvir crianças a cantar, a tocar um instrumento, a fazer uma coreografia.

Choro (quase sempre) nas festas de Natal da escola. O meu filho ainda é uma criança muitos dias, e um pré-adolescente outros tantos. Vibra com a festa de Natal como se fosse a estreia de uma qualquer peça importante, com estreia internacional. Treina, empenha-se e faz tudo aquilo a que se propõe. Veste o que tiver que vestir, dança o que tiver que dançar.

Se choro (quase sempre) esta noite não foi excepção e cá para o meu lado vi tudo com outros olhos. É agora que vejo como era tão mas tão rica por ter tudo e não saber. Perder o Pai é das cruzadas mais duras da Vida. Podia imaginar que fosse duro mas não tanto. Já tenho saudades das nossas conversas, de como me chamava alpigarça, daquele suporte seguro que era um ponto de abrigo para onde podia fugir acontecesse o que acontecesse. O Natal e a magia do Natal indiscutivelmente que é das crianças, mas quantas e quantas vezes me lembro da minha infância, dos meus Natais sempre simples mas cheios de tudo. Do ir apanhar a árvore com o meu Pai (fiz isso até acabar a Universidade), do musgo verdinho e seco que apanhava delicadamente para fazer um enorme presépio do qual não tenho quaisquer registos (era uma porra não haver uma máquina fotográfica lá em casa!), dos chocolates para pendurar em forma de Pai Natal, sinos e bolas, de receber quase ano após ano “A minha Agenda” RTP que era um sucesso (ainda hoje um dos meus presentes de Natal é sempre uma agenda), das luzes da árvore com que delirava a cada pisca pisca…

O Natal sempre foi a minha altura favorita do ano. Neste, tão atípico e invulgar, tão triste e já tão saudoso, misturo a escolha dos presentes com a escolha da pedra mármore para a sepultura do meu Pai, os sorrisos e abraços da família com as lágrimas que deito em silêncio, e a dor que me atravessa com a esperança que a Vida me injecta..

Chorei pra caraças hoje na festa, mas caramba, havia lá fadas e fantasia e crianças inocentes e felizes que espero não venham a perceber tão cedo que um dia perdemos os pais. Os pais alguma vez haveriam de desaparecer?! Faz isto algum sentido?!

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