Órfã de Pai.

Há um ano jamais acreditaria que iria perder o meu Pai antes da minha Mãe. Sempre achei que o meu Pai cá estaria para nos ajudar com a terrível doença que ataca a minha Mãe e que, Graças a Deus, ainda não se manifestou de forma gritante embora a cada dia se perca (mais) uma réstia da memória.

A vida dá muitas, inúmeras voltas. Nem sempre estamos preparados para elas. Nuns dias achamos que somos valentes, noutros uns gigantes com pés de barro, e noutros desatamos num pranto com o primeiro amigo/conhecido que nos aparecer à frente. Os dias são todos diferentes e nós, tal como a meteorologia, podemos prever como estaremos mas também poderemos falhar. Não sei se é das hormonas, do ciclo menstrual, do facto de ser mulher, do facto de ser caranguejo, enfim, não consigo estabelecer uma relação causa efeito. Sei que em alguns dias me esbardalho na auto estrada das emoções e choro quase de manhã à noite.

O meu Pai faz-me falta todas as horas dos dias mas faz falta à minha Mãe todos os segundos das horas. Todos. Porque o meu Pai era a bússola que a orientava na desorientação que a doença tantas vezes lhe trás. A minha Mãe não consegue aprender, fixar, memorizar. Tem um telemóvel novo e demorou quase um mês a perceber em que teclas clicar para fazer uma chamada. Só sabe atender. Eu sei que ela não me liga não por não se lembrar de mim ou por não querer saber. Ela não me liga porque não sabe como fazer. Olha para um telecomando de uma televisão como eu olho para o cockpit de um avião. A auto estrada do seu conhecimento tem inúmeras vias cortadas, daquelas de terra batida em que é preciso desbravar a erva para se passar. Depois de limpas até um camião lá passa, mas em bruto nem com carro de mão.

O meu Pai era o mais inteligente e cheio de destreza dos Homens. Sabia um bocadinho de quase tudo tirando algumas excepções como a cozinha em que era um zero à esquerda. Mas sabia de electricidade, de canalização, de pedreiro, de carpinteiro, de jardinagem, agricultura e de tudo o que fosse engenhocas. Sinto falta da sua destreza, da forma sábia como me resolvia os problemas (no último ano de vida perdeu todos os interesses). Sinto falta do que não lhe cheguei a dizer (isto que aqui escrevi agora por exemplo), dos sítios onde não fomos, onde não o levei, e de como devíamos ter aproveitado a vida enquanto era plena.

Ficou um vazio gigante, abismal, que nunca será preenchido. Nunca. Jamais. Em tempo algum.

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