Slowly Return..

Lentamente todos temos a sensação de que o pior já passou. Ou não. Que não haverá certamente uma segunda vaga da pandemia. Ou não. Que se calhar afinal, cada um de nós, os que tiveram cuidados e sorte, sempre escaparam ao Covid19. Ou não.

Não gostará o vírus de calor e temperaturas altas como estas que se fazem sentir?! Quantos de nós já não mete nem um terço do álcool gel que colocava nos começos desta pandemia?! E lavar as mãos, ainda as lavamos com os mesmos cuidados, até ao antebraço, esfregando palmas com costas, costas com costas, palmas com palmas sem esquecer os polegares?! Hum creio que não, creio que tudo está diferente…Ou se calhar não. Tenho muito medo do que aí vem. Um medo terrível de perder a minha Mãe que revi ao fim de 3 meses de ausência. O pior e mais doloroso tempo que estive sem a minha Mãe. Estes tempos foram tudo menos fáceis. Estão a ser duros, ainda tão incertos, ainda tão assustadores.

É tempo de, lentamente, regressar às rotinas…Que medo tenho de ir a restaurantes, cafés, a sítios públicos, a locais com ajuntamentos de pessoas. Que desconforto que é para mim usar máscara…as comunitárias, as cirúrgicas, nenhumas para mim são fáceis. Mas tem que ser, não há outra opção. Mesmo que me digam que já passou, eu tenho medo, eu continuarei a ter medo. Demorarei muito tempo a conseguir ter de volta a ausência de receios.

O sol é um grande aliado mas pela primeira vez não estou a conseguir ter grande tolerância ao sol e ao calor. As enxaquecas (umas mais fortes do que outras é certo) têm sido muito mais frequentes do que eu desejaria e do que consigo suportar. Um tormento que só quem passa. Só tolero o sol da manhã. É assim que tenho conseguido desconfinar e dar alguma cor a esta pele tão farta de estar em casa.

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Eles desconfinam…

Gostava [se calhar] de conseguir dizer, Eu desconfino,Tu desconfinas, Eles desconfinam… Mas de facto eu ainda não desconfinei, nem tenho ainda uma data para recomeçar a trabalhar e em que moldes. Dizer que tem sido extenuante é um bocadinho soft. Diria que tem sido um desafio. Dou por mim a ir ao lixo para apanhar ar na cara, a fazer exercício até nos dias em que tinha designado não o fazer, em como a minha mãe a ficar contente de ir a um supermercado, ou por experimentar um detergente novo. Vidas…

Hoje regressou uma boa parte da população ao activo. Restaurantes, cafés, creches, professores e alunos dos 11 e 12 anos, uma espécie de cobaias para o próximo ano lectivo, e certamente muito mais gente do que aquela que não trabalhava na semana passada.. Pelos vistos houve muito mais trânsito na estrada e milhares de pessoas puderam de novo experienciar um café em chávena escaldada. Não foi o meu caso. Acho que já todos precisamos de retomar as rotinas.

Este confinamento provocou em mim algumas alterações que serão comuns a muit@s: tenho muita dificuldade em andar com calças de ganga (ando há muito tempo de roupa confortável), tenho problemas com os soutiens (tudo me magoa, tudo me incomoda, andei sempre de tops desportivos), não aguento as lentes de contacto muitas horas (antigamente poderia andar com elas 15 horas sem incómodo algum), não me apetece perder muito tempo com o cabelo, nunca mais usei anéis e brincos grandes, nem blazers, casacos, botas e echarpes. O simples e prático passou a ser o essencial e este desconfinamento há-de ter que trazer com ele muita adaptabilidade em muitos, inúmeros, campos..

Dias como hoje são de muita expectativa para muitos. Não sei se vamos ficar todos bem (mais de mil e de quem deles gostava não pode dizer o mesmo) mas sei que a economia tem que arrancar…Por muito que custe e seja estranho.

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Dias sem fim.

Há aquele ditado que diz “Não morreu da doença, morreu da cura” e de facto, há dias, em que parece que sairei deste confinamento num estado mental muito pior do que se calhar os sintomas que a Covid19 me poderiam trazer. Ou não. Não sei.

Desde há algum tempo que uso máscara em sítios fechados e comecei a utilizar em alguns espaços abertos também, nomeadamente se estão pessoas em volta. Percebo que não tenho grande pulmão, que muitas vezes fico com um cansaço extremo, extenuante, com uma sensação de cansaço no peito que me incomoda. Não sei se isto acontece com mais pessoas, se me acontece só a mim. Sei que fico como se tivesse corrido uma meia maratona (não sei, nunca corri, mas deve ser mais ou menos assim).

Tenho vivido tempos complicados. A morte, essa senhora vestida de negro, tem feito visitas a pessoas chegadas. Perder familiares custa sempre muito, perder pessoas jovens com a minha idade que cresceram connosco, faz-nos perceber que a linha que separa a vida da morte, é de facto, muito ténue. E isso é, para mim, verdadeiramente assustador.

Não consigo tirar o preto da minha alma, nem da minha roupa, mas pelo menos obrigo-me a conseguir vestir umas calças de ganga e uns ténis com pequenos apontamentos coloridos.

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56/…

Esta coisa do confinamento, de estar fechada em casa, de na minha inocência ter achado que bastavam 15 dias em casa para esta porra passar, tem-me trazido também grandes análises sobre o que vai acontecendo na sociedade. Percebemos todos que temos que andar de máscara daqui para a frente e até não sei quando, que o distanciamento social vai manter-se por muito tempo, e que é preciso alertar os mais velhos para os perigos iminentes deste inimigo invisível, incolor, inodoro. Que não se sabe onde está, nem muito bem como se transmite, essa é que é a realidade.

A minha Mãe tem 80 anos. Está na idade de risco. Nunca mais a vi. Nunca mais lhe toquei, nunca mais lhe senti as mãos. A minha Mãe às vezes acorda e não se lembra da pandemia. É como se o mundo estivesse igual. Também lhe custa o confinamento. Gostava muito de ir ao supermercado de vez em quando. E nunca mais foi. Está em casa neste “rame rame” há muitos dias e ontem pediu para ir ao supermercado, ver umas coisinhas. Poderia ir só à mercearia de bairro que não se importava. Não há forma de lhe dizer que não. É um pedido legítimo, que todos entendemos. Lá foi ela, por momentos perceber, à maneira dela, como o mundo está.

[56 dias de exercício. Para este lado se falhei foi um dia].

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55/…

A pessoa sai para ir ao supermercado e percebe que está quase doidinha quando fica feliz por ainda saber conduzir (embora por vezes se esqueça que o carro tem a 6a), quando percebe que já mal sabe andar calçada (parecia que tinha pedras, descalcei-me 3 vezes) e de saltos (mesmo sendo dos confortáveis), que olha para tudo como se tivesse estado adormecida durante uns 3 meses, que vê todos ao seu redor, na estrada, no supermercado e nas ruas, de máscara e percebe que sim são outros tempos, é uma nova vida, uma nova forma de viver, um novo Mundo para onde fomos enviados com um livro de instruções muito limitado.

Passaram 55 dias e o Mundo mudou. Perdemos todos a expressão. Vai levar muito tempo até isto se compor.

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