Once a year.

Não sou pessoa de ir com grande fluência ao médico. Graças a Deus. Nos últimos anos tenho feito check ups ginecológicos porque são áreas que tenho mais fragilizadas.

Ano após ano visto esta bata cor de rosa. É sempre esta a bata ou uma gémea igualzinha. Tiro sempre uma selfie e há sempre apreensão e terror nos meus olhos. Há sempre um coração mais acelerado ainda que feito de rotina. Isto já devia ser normal para mim mas não é.

Hoje vivi uma experiência diferente. Fazer exames em tempos de Covid torna tudo ainda mais estranho. Alcool gel até mais não e observar o que me rodeia em 3,2,1.. Na fila à minha frente uma menina de 1996 prepara-se para fazer uma mamografia. Fez uma viagem longa porque é de longe e no olhar traz a ansiedade própria de quem sabe que não tem idade ainda para estas andanças. Tem um cabelo imaculadamente liso e penteado que só assim à laia de exemplo contrasta deveras com o meu, mal apanhado num rabo de cavalo daqueles feitos às três pancadas a deixar cair pontas soltas.. Está super nervosa e ansiosa. Chama-se Carolina. Não faço ideia o que tem mas observo-lhe (disfarçadamente) o peito. Poderá uma menina destas já estar sem um peito?! Terá sido como eu a quem a pandemia trouxe fantasmas?!

Nos meados da pandemia, ali para começos de Abril comecei a sentir umas dores estranhas na axila esquerda. No início pensei que era uma borbulha, observei ao espelho e nada. Andei muito ansiosa. Todas as clínicas estavam fechadas e não sabia o que fazer. Percebi alguns dias depois que deveria estar relacionado com os exercícios que andava a fazer. Abdominais oblíquos tinham sido a causa para uma dor que entretanto aliviara.

Quando as clínicas reabriram deixei passar umas três semanas e fui à ginecologista checar tudo o que havia para checar. Já fiz tudo. Está quase tudo bem mas há quistos novos que deram lugar a outros que desapareceram, um mioma que aparentemente é inofensivo e um pólipo (finalmente visível e claro) que é preciso ir controlando. Apesar de tudo são pequenos e sem grande relevância. Hoje, tal como nos outros anos respirei de alívio. Não há nada mais importante que ter saúde e é nestas alturas que lhe sabemos dar (ainda mais) valor.

A menos que haja uma reviravolta, que o pólipo se chateie com o mioma ou que os quistos se enfureçam uns com os outros por lhe ocuparem o território, se não tiver hemorragias que me façam ficar anémica ou estendida numa cama durante horas, a coisa, por um ano, está controlada.

Só visto esta bata de ano a ano. São muitas as mulheres que cruzam esta clínica. Vêm de longe ou de perto, são mais velhas, mais novas ou aparentemente sem qualquer problema. Conheço os médicos pelos nomes, eles vão-me perguntando por alto as minhas “dores”. Hoje um deles perguntou como estava o meu paizinho… Lá lhe tive que dizer que, infelizmente, não o consegui salvar…

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July.

E já estamos em Julho.

A sensação que tenho é que os últimos meses não existiram. Como se fossem feitos de uma matéria que não fica, não perdura… Tinha que vir uma pandemia para parar o Mundo, para nos colocar a todos e a cada um de nós, no devido lugar. Parou tudo. De repente todos percebemos que se calhar por vezes é melhor abrandar, que não valem a pena as agitações desta vida, o desejo fervoroso de ter sempre mais, o trabalhar desmesuradamente sem rei nem roque.

Chorei muitas lágrimas nestes meses e outras nem as deitei cansados que estão estes olhos de as deitar e e este pescoço de engolir em seco. Lembro-me de chorar enquanto fazia abdominais, de chorar a fazer prancha, de chorar quando me lembrava disto ou daquilo. Continuamos todos a recear o que aí vem, a não perceber que sequelas deixa esta doença misteriosa.

Tenho uma grande amiga a quem a pandemia lhe levou as viagens. Levar-lhe as viagens é assim o mesmo que a mim me arrancarem os livros, ou a música, ou agora o exercício. É ficar assim um bocadinho às aranhas sem saber como dar a volta. Essa amiga ensinou-me que por vezes bastamos nós para se ser feliz, que se pode viajar sozinha por montes e vales e andar pelo mundo inteiro mesmo que se arranhe mal no Inglês, que podemos deixar uma carreira de lado para não se sentir a pressão que os outros, a sociedade, nos faz… É bom ver o outro lado das vidas. Das de sucesso e das outras que podem ser tão ou melhor sucedidas que aquilo que preconizamos. Admiro-lhe a audácia e a coragem e nunca condenei as suas opções, mesmo que qual mãe, por vezes as ache pouco acertadas ou inconsequentes.

Com a vida também aprendi que preciso de muito pouco. Que pouco me interessam ter mil pares de sapatos se ando sempre de havaianas ou ter um armário cheio de roupa chique se só uso roupa simples, ou ter gavetas cheias de jóias verdadeiras se uso quase sempre as pérolas minúsculas que comprei por 1 euro no chinês. A vida vai-nos ensinando o que é relevante. E esta pandemia foi muito clara a elucidar os que disso tinham dúvidas.

Já estamos em Julho.

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Last of June.

Tenho muitas saudades do meu escrever constante aqui, do meu relatar, de trazer o pior e o melhor dos meus dias.. Ultimamente acho sempre que há pouco de interessante para escrever e tenho muita dificuldade em escrever sobre pormenores e detalhes que me fazem ter leituras mas que não eram tanto o propósito do blog.

Muito poucas pessoas do meu círculo restrito têm acesso ao meu blog. Nunca o divulguei, nunca fiz partilhas, sempre preferi que ficasse assim. Partilho demasiadas aflições e pensamentos para o querer divulgar. Deixei de dizer bom dia e boa noite. Deixei de escrever mas não deixei de vir. Tantas vezes deambulo por leituras de outros tempos, de outros anos. Sempre gostei de assinalar o chegar dos meses novos. Amanhã entra Julho que é tão só o meu mês preferido de sempre. Porque Julho sempre me cheirou a férias, a praia, a bom tempo, mesmo que aos 13 anos tenha começado a trabalhar para conseguir comprar as coisas que queria e os meus pais não me conseguiam/queriam comprar. Nesses tempos Julho era feito de trabalho, de muitas horas em pé atrás de um balcão a servir cafés, imperiais, bolos, torradas gelados e revistas. Foi nessa altura que aprendi quase tudo sobre vinhos, dos verdes aos brancos e dos tintos aos espumantes. Trabalhava num restaurante. Um destes dias a passar por um café acabado de fechar vi uma menina a arrumar as mesas e revi-me naquele ritual diário. O que eu mais detestava (ainda assim fazia-o todos os dias), era, na copa, lavar as peças da máquina de café. O cheiro quando a água fria cruzava o café quente, moído, acumulado, é dos piores cheiros de que tenho memória. Talvez por isso nunca tenha apreciado café ao longo da vida…

Era em Julho que arrancava a época e lá para o fim do mês, com o salário e o dinheiro das gorjetas já eu podia comprar mais uns sonhos, umas calças Levis, uns ténis Allstar ou Redley ou umas peças coloridas da Benetton. Nessa altura os meus sonhos eram ainda muito curtos embora tivesse alguns mais distantes e que nunca deixaram de cruzar o meu caminho: ser jornalista sempre foi o que quis…Foi esse sempre o meu maior sonho.

P.S (Sempre usei chinelos de enfiar no pé. No meu tempo chamava-lhe “enfias”. Não havia ainda havaianas, viriam a aparecer já mais tarde com os meus 16 ou 17 anos. Não há calçado para mim melhor no Verão, por mim andava sempre com isto).

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Saturday.

Amanhecer cinzento como de resto todos os dias desta semana. Gosto do sol a entrar pela janela logo de manhã, gosto das manhãs com sol nestes tempos de começo de Verão, gosto da piscina de manhã, gosto do sol no pico a bater nas águas azuis de uma piscina, não gosto de piscinas verdes daquelas que imitam as águas de certos mares, para mim as piscinas têm que ser azuis, gosto da pele morena, gosto de ler na praia e na piscina desde que o sol não esteja a bater no livro, gosto dos dias longos de Junho, e gosto de me levantar cedo se bem que muitas vezes acordo antes de uma hora aceitável. Gosto de calções e saias e t-shirts e roupa fininha de Verão. Não gosto de usar anéis e muitos acessórios no Verão, muito menos agora que estou sempre a lavar as mãos. Demoro uma eternidade para me molhar e sou incapaz de mandar um mergulho assim de repente. Gosto do cheiro a côco do protector do Lidl que uso há muitos anos e que dá uns brilhos à pele. Gosto de me secar ao sol com a pele molhada. Não gosto de enchentes, nas praias, piscinas e muito menos agora.

Gosto das segundas, quartas, sextas, e sábados.

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Longe…

Estou longe de me sentir estabilizada. Tenho momentos, horas, dias, muito maus. Como todos nós é certo, mas uns mais do que outros. Há um vazio tremendo em mim que tento colmatar com muita coisa (que não chega)… Disfarço que estou bem. Muito longe disso.

Ando pensativa porque sempre que alguém acaba com a vida por não saber lidar com ela, com os problemas, com os imprevistos, com as inseguranças, quem é mais instável também se vai abaixo. Mesmo que não conheça, mesmo que não prive. Os emaranhados voltam, a tristeza profunda que já nem lágrimas deita, a dor e o aperto disfarçados num sorriso ténue. Há muita gente que está mal. O cenário que vivemos não ajuda, antes pelo contrário. Voltou a agitação dos números à hora do almoço, da sensação de descontrolo que paira no ar. Já não se sabe nada de cadeias de transmissão, de focos de contágio. Está tudo descontrolado, ninguém sabe de nada. Os casos surgem a cada dia, em cada mais terras, cada vez em maior número. De novo. Não sei se é a segunda vaga, se é a primeira que nunca despegou. Já não se batem palmas à janela, nem se enganam as pessoas com os tais 14 dias de isolamento. Não há sintomas e portanto podemos estar todos infectados e não sabemos. Os novos estão saturados e os velhos antes preferem morrer de um abraço que sozinhos. Que estão. Tenho terror a estes tempos e não sei quando vão passar.

Esta merda está longe de acabar. Longe…

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