Agosto.

Há alguns meses que não escuto o despertador. Acordo muito antes dele, embora não precise, não seja necessário. Ontem, pela agitação do dia que tive acordei por volta das 5 e nunca mais dormi. Hoje achei que me ía desforrar mas qual quê, 7 e pouco e abro a pestana para não mais conseguir dormir.

Tinha tempos em que voltava a dormir, e dormia aquilo que eu achava ser um sono profundo. Tenho agora um relógio que me monitoriza as actividades, os passos, o ritmo cardíaco, e as horas de sono profundo que rondam as 2, 3 horas por noite. Serão estes valores normais, ou a minha cabeça anda a deambular e de facto descanso muito pouco?!

Entramos hoje em Agosto. Já ouço esse pormenor atmosférico que se chama vento e que tem sido uma constante destes meses, a que desculpem, nem me atrevo a chamar de Verão.

Bom dia para esse lado.

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Das férias..

Há muita gente que leva o ano inteiro a sonhar com as férias. Eu, sonho com o dia em que volto a ter trabalho de novo. Sei que preciso descansar, retemperar energias, ganhar fôlego para o Inverno puxado que aí vem, mas demasiado tempo livre e se não tiver um propósito deixa-me a cabeça cheia de pensamentos, alguns deles, já se sabe, menos bons.

Não dá para ir à piscina porque está um vento gelado que me impede de andar de calções quanto mais de roupa de banho, não dá para ir à praia pelas mesmas razões, não dá para comer na varanda, para usar, finalmente, as roupas de Verão, e uma pessoa que se atreva a andar de havaianas está sujeita a apanhar um resfriado (ontem apanhei tanto frio em 10 minutos que cheguei a casa e precisei de um banho quente). O tempo não ajuda e vá o meu estado de espírito também não.

Resta o poder dos livros, esses que tanto ajudam, em alturas com tempo deste, e em alturas com pensamentos destes.

Tenho lido livro atrás de livro mas também tenho começado muitos que não consigo ler. Nunca me forço a ler um livro. Se me cativa tem que ser na primeira página (diria que no primeiro parágrafo), nunca leio com enfado à espera que o livro me surpreenda. Raramente compro livros agora porque já não tenho espaço para eles e porque sempre fui a bibliotecas públicas e li grandes sucessos desta forma. Para mim é fácil estar sempre a trocar de livros porque há milhares na biblioteca onde vou..

Autores que nunca me desiludem? Haruki Murakami, que reconheceria a escrita numa prova cega, tal o número de obras que dele já li. É a minha escolha do momento, para conseguir esquecer-me da aragem gelada que me perspassa a janela..

Verão é ler. Para mim, Verão é mesmo ler.

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Segunda.

Daqui a 2 dias passamos para outro mês. O tempo passa mesmo a voar, a uma velocidade impressionante..

É tempo de me agarrar com unhas e dentes ao livro maravilhoso que ando a ler, a ultimar todos os projectos e conseguir finalmente respirar férias sem datas e deadlines para cumprir.

Bom dia para esse lado.

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It’s July and it’s raining.

Está a chover caramba. Tudo molhado, tudo cinzento, um aspecto de Outono que mete medo. Mas não estamos a 27 de Julho?! Não era suposto vestir um vestido e toca a andar, de pernas à mostra e de sandálias?!

Juro que não percebo este tempo. Não entendo. Já não há Verão, a Primavera percebe-se que despontou porque as flores que só dão flor uma vez por ano cumpriram o seu ritual, mas de resto não ser percebe muito deste tempo e destas alterações. Os vendedores de bolas de Berlim com certeza que hoje levarão menos na cesta..

É a natureza a mostrar quem manda..

Bom dia para esse lado.

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Do ter um animal…

Sempre tive o sonho de ter um gato, mais do que um cão. Na infância sempre houve cãezinhos pequenos em minha casa mas confesso que nunca tive uma ligação extremosa aos bichos, isso foi a idade que me trouxe.

Continuo a ter medo de cães que não conheço, de gatos com quem não tenho ligação.

Os meus pais o ano passado adoptaram o gato que tinha sido adoptado pelo meu irmão. Pelo Verão apareceria abandonado este gatito que baptizaram de Jeremias. A cumplicidade entre os meus pais e o Jeremias não foi imediata, começaram por ser muito bravos com ele, quase ríspidos e pouco mais atenção lhe davam que a ração no prato. Não havia ligação, cumplicidade ou afeição por aquele bichano. O ano passado ele estranhou-me, afinal era toda uma família nova que ele tinha que conquistar e tudo foi muito rápido. Mal me conseguia chegar a ele, era arisco e tinha mesmo medo dele. Passou um ano e acho que o conquistei (e ele a mim, confesso). Consigo demoradamente fazer-lhe festas, adormece praticamente sob as minhas mãos e sente-se tranquilo (quando está tenso abana o rabo mesmo com os olhos fechados).

Há uma sensação de paz enorme ao ver um animal nosso dormir sossegado. É como se naquele momento percebessemos que o mundo e a segurança daquele bicho somos nós. Cabe-nos a nós cuidar deles, tratar deles, zelar pela sua segurança. Sinto falta quando o Jeremias não está na cadeira dele a dormir o seu sono, ou quando não me aparece. O que me liga ao Jeremias (e o que o liga a mim) é completamente desprovido de interesse, é puro, como só os animais podem ser. Adorava ter um gato só meu, confesso.

[Da série “Um dia vou ter um gato”. Mas mesmo. Sem dúvida.]

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